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CRÓNICAS NO MASCULINO | Intitulados Manientos

Ora cá estamos para o segundo texto do Crónicas no Masculino. O tema que vos trago hoje toca numa questão sensível na sociedade portuguesa: a necessidade de termos um título que sirva de prefixo ao nosso nome. Eu lembrei-me, antes de mais, de fazer uma Crónica com este tema, porque a Carolina tem o hábito carinhoso de me chamar “Sr. Presidente”, uma alcunha que já não me pertence, tendo em consideração que encerrei o meu “mandato” na Associação de Estudantes no final do ano letivo 2012/2013.

Ora bem, toda a gente conhece alguém que seja tratado por Doutor/Dr. não sei quê, ou uma pessoa conhecida por Engenheiro não sei das quantas, ou por Professor coiso e tal, ou por Arquiteto X, ou por Mestre Y... Existe um conceito enraizado na cultura portuguesa de valorizar o prefixo que antecede o nosso nome e, na teoria, esta valorização do tratamento por “Sr. Doutor” ou “Sr. Engenheiro (que deveria apenas acontecer no local de trabalho da(s) pessoa(s) em questão, enquanto profissionais de determinada atividade digna desse registo), na prática é transposto para a vida pessoal e social. Por exemplo, um vizinho meu (cheio de “cartimância”) colocou na sua caixa de correio o seu nome: “Prof. Carlos  lá lá na na”. Não consigo encontrar uma explicação clara ou qualquer sentido (se é que o há!), para que este tipo precise de declarar a sua ocupação profissional ao senhor dos CTT e aos restantes vizinhos mas há mais exemplos. Um deles é a própria praxe: um tipo ainda não está formado, por vezes está no 1º ano do curso com tudo por fazer, só que tem 2 matriculas e já é Doutor por tratamento e não aceita ser chamado de outra forma pelo caloiro. Mesmo que seja por brincadeira, há aqui algo mais do que uma simples forma de brincar. Há uma anomalia cultural.

A minha análise relativamente a esta questão é clara: os portugueses têm um complexo de inferioridade entranhado na sua cultura e, para colmatar isso, um indivíduo recorre ao curso superior para a obtenção de um determinado estatuto social. Temos como a maior prova disso, o caso do Ex-Ministro - Adjunto e dos Assunto Parlamentares - Miguel Relvas, que recorreu a meios fraudulentos para assegurar uma licenciatura fantasma, que lhe passava o tal "atestado de competência" (que ele não tinha) e o tal "estatuto social" (que ele perseguia). Tudo isso feito para obter um fim: chegar ao topo da pirâmide partidária e governativa em Portugal. Por que o fez? A explicação é simples: em Portugal, uma pessoa sem um curso superior é considerada pelo senso comum sem aptidão para exercer cargos públicos ou dirigir o que quer que seja. Só que depois temos os exemplos de Jerónimo de Sousa (líder do PCP, que era Metalúrgico) e de Lula da Silva (Ex-Presidente do Brasil e também Metalúrgico), que nos comprovam que o canudo não é um meio indispensável ou absolutamente essencial. Qualquer pessoa que seja competente e preparada para tal pode chegar lá com trabalho, inteligência e força de vontade.

Atenção! Eu não estou a generalizar (disso falei-vos na primeira edição desta rubrica), nem estou a dizer que o curso superior assegura esse estatuto social, nem que os portugueses têm motivos para se sentirem inferiorizados, nem que o tratamento por títulos é incorreto em toda e qualquer situação… Concordo e aceito que deva existir um código de tratamento formal e coercivo no local de TRABALHO para os profissionais que dispõe das qualificações dignas desse tratamento. O meu pai tem o 12º ano de escolaridade e só por andar de fato e gravata no local de trabalho dele, há pessoas que lhe chamam Dr. e isso não faz nenhum sentido. Ele próprio desmente sempre as pessoas que assim o tratam. No entanto, também não sou a favor do "informalismo" em demasia (“Senhor Ministro, o que é que tem a dizer sobre a possível descida do IVA da Restauração?" "Trate-me por Álvaro, por favor!").

Resumindo e concluindo, formalismos e códigos de tratamento (“Ó Sra. Doutora”, “Ó Engenheiro”), no meu ponto de vista devem existir nos locais apropriados, quando as relações são estritamente profissionais e impessoais, quando a pessoa possui conhecimento e uma base de formação para os ter. Quando se está com a família, com amigos, com conhecidos do âmbito pessoal e social, fora do ambiente profissional, exterior a tudo o que é a atividade laboral do sujeito, não existem títulos que possam acasalar com o nome que os pais do Zé, da Maria, do Manel ou da Fernanda lhes deram no momento em que os trouxeram ao mundo 

Despeço-me pedindo-vos que continuem a acompanhar o Lucky 13, um blogue bastante fofinho, composto por publicações fofinhas, textos fofinhos e criado por uma pessoa ainda muito, mas muito mais fofinha que o próprio blogue! Como diz o Bruno Nogueira no tubo de ensaio: "ADEEEEEEUS"!

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12 comentários:

  1. Depois temos o reverso da medalha, em que para as pessoas se sentirem enaltecidas retiram o título a outra pessoa. Por exemplo, no meu local de trabalho toda a gente insiste em chamar-me por "menina" embora eu tenha uma licenciatura, mas eu sou obrigada a chamar toda a gente por Doutor/a, até aqueles que ainda não acabaram o curso. São as chamadas coquetices, felizmente pouco me incomoda ter títulos atrás de mim (se bem que ser tratada por menina com a idade que tenho me faça torcer o nariz).

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  2. Portugal dá realmente muito "valor" aos títulos mas eu não gosto nada disso. Na Universidade, segundo diz o código, eu já sou Ilustre vê lá tu! Mas ninguém me chama isso nem eu quero.
    Isso de chamar doutor ou engenheiro ou seja o que for é realmente um erro que devia ser mudado na nossa cultura mas enfim. E acerca disto fiquei com uma ideia para fazer um post, obrigada ;)

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  3. Eu concordo tanto com o que foi escrito! No nosso país parece que as pessoas sentem necessidade de se "auto-elevarem" e se vangloriarem dos títulos que têm.

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