Thirteen

SOCIEDADE | Prioridades

Os vizinhos não se conhecem, o espírito típico das aldeias mais pequeninas foi-se perdendo, o hábito dos encontros no café para conversar sobre trivialidades desapareceram aos poucos e os valores de solidariedade foram ficando para trás. Na época dos computadores, das televisões e dos smartphones, o "eu" é mais valioso do que "o outro" e não se olha a meios para atingir fins. Vivemos num mundo cada vez mais individualista e, no entanto, toda a gente acha que tem alguma coisa a dizer quando o assunto é dinheiro. Mesmo quando esse dinheiro é o dos outros. 

Já perdi a conta aos comentários que ouvi (e que li, também) sobre dinheiro e sobre compras. "Sabias que a X comprou um carro? Aquela vaca anda toda rota e depois compra carros". "Devias ter vergonha de mostrar isto. Pessoas a morrer à fome e tu a espetar-lhes na cara os presentes de aniversário todos XPTO que recebeste", "Devias passar fome para veres o que custa a vida em vez de comprares vernizes", "Sabias que a Y não almoçou durante a semana toda para comprar uma camisola?".

Cada um tem o que tem e compra o que compra porque cada um sabe de si. Cada um gere o seu dinheiro da forma que bem entende e se há quem prefira não almoçar para comprar um par de sapatilhas ou um telemóvel, ninguém tem nada a ver com isso. Desde que não roubem e desde que não prejudiquem os outros, não vejo onde está o problema. Não somos individualistas? Então se não há ajudas também não há justificações. Se não nos incomodam (a nós, seres humanos em geral) as preocupações dos outros quando estão mesmo à nossa frente porque é que os seus actos têm de nos provocar urticária?

Fazer viagens não significa que existem rios de dinheiro a nascer de todo o lado e mostrar muitas aquisições num blogue não significa que se faça muitas compras. É possível poupar cinco anos para uma máquina fotográfica e comprá-la sem se ser dono de um título nobiliárquico. É possível ter um blogue famoso com marcas associadas e receber patrocínios de todas elas todos os meses. É possível ganhar uma viagem num passatempo ou ter um amigo a trabalhar numa empresa de cruzeiros que faça uns descontos porreiros que facilite uns dias fora de casa para relaxar. E, portanto, quando me dizem que "a X foi de férias para o Hawaii durante quinze dias mas depois anda o ano todo a poupar nas refeições", eu não ligo. São prioridades e cada um tem as suas.

Quero lá saber se a pessoa X, Y ou Z deixa de comer dois dias por semana para comprar uma mala. Quero lá saber se a pessoa A, B ou C põe os filhos num Colégio Privado. Não me interessa. Porque se a ideia é ser individualista e ficar na minha casinha o dia todo sem conhecer os vizinhos, então também não me incomoda minimamente aquilo que eles fazem nas suas vidas. Quero lá saber se vão de férias para o Brasil ou se, cada um deles, tem dois iPhones e três carros. Não me interessa. É uma coisa que não contribui para a minha felicidade nem para a minha infelicidade. Se me afectarem, a mim ou aos meus, aí se calhar já temos problemas. Se me pedirem dinheiro emprestado e o usarem para ir de férias, se calhar já fico chateada (principalmente se eu não for de férias por ter outras contas (ou prioridades!) e se vir isso como um pequeno luxo). Mas se não me incluírem nesses esquemas, o que é que tenho a ver com o assunto? Aliás, o que é que todos temos a ver com a carteira uns dos noutros? São prioridades. Cada um tem as suas. E se preferem não comer para comprar um telemóvel, que seja. Cada um sabe de si portanto sejam felizes e deixem as prioridades dos outros em paz, sim?

14 comentários:

  1. Adorei o texto e não podia concordar mais contigo! Cada um é dono do seu dinheiro e faz o que quer com ele :)

    R: Tenho a certeza que te vais encaixar num desses grupos, se já os houver! Além disso no início das aulas os grupos ainda não são definitivos, as pessoas ainda não se conhecem assim tão bem :)

    ResponderEliminar
  2. Também sou assim! Quero lá saber o que os outros fazem ou compram. Eles é que sabem da vida deles.

    ResponderEliminar
  3. é que cada um faz o que quer com o seu dinheiro e acho que é ridículo pensar de outra forma. este é um dos poucos assuntos que me deixa horrorizada ver pessoas que discordam da minha opinião

    ResponderEliminar
  4. o meu namorado é totalmente assim.
    eu confesso, tenho que trabalhar para nao criticar tanto as pessoas. Nem é muito nesse aspecto, ninguém sabe a verdadeira economia das pessoas ou como gerem o dinheiro, mas no geral, sou um bocado critica e de forma negativa de mais.

    ResponderEliminar
  5. Concordo tanto contigo. Mas infelizmente é a sociedade que vivemos nos dias de hoje... As pessoas não sabem as poupanças que as outras fazem, não sabem se tiveram a juntar dinheiro por dois ou três anos por isso não tem argumentos nenhuns para falar. Cada um sabe de si :)

    ResponderEliminar
  6. R: Pois, não sei o que fazer. É assim, por um lado, já mesmo antes de saber que iria mudar de escola que dizia que queria participar numa lista este ano, ter essa experiência. Quando mudei de escola, não me passou pela cabeça que isso fosse acontecer. Agora dizem-me isto. Tenho consciência de que tenho iniciativa, e ideias, e não tenho problemas nenhuns em arregaçar as mangas e trabalhar, mas também me quero concentrar na escola, e o facto de não viver perto também dificulta as coisas.

    ResponderEliminar
  7. R: Eu amanhã falo com eles e explico-lhes a situação. Porque lá está, eles queriam-me mais por uma questão de imagem - porque ninguém me conhece, ao contrário do que se passa com eles e muitas vezes por maus motivos -, e acabaria por ser mais "marketing" que outra coisa. Gostava muito de poder ser presidente, por isso vou ver se posso conciliar as coisas ou não. Se for para fazer o trabalho mal feito não me meto nisso sequer :)

    ResponderEliminar
  8. digo-te que eu já fui pessoa de "dizer mal" de pessoas por causa das opções que tomavam. Isto porque eu sempre tive uma educação muito baseada na palavra poupar. Fui tão educada à volta disso que mesmo eu se gastar numa cena só porque sim arrependo-me logo. O meu namorado diz que eu tenho um problema crónico com o dinheiro mas tenho melhorado bastante. Se antigamente podia dizer mal das opções menos correctas (a meu ver) das pessoas, agora não ligo. Cada um sabe de si. Tal como eu também sei de mim, não é? Dito isto, não podia concordar mais contigo :)

    ResponderEliminar
  9. E quem fala assim não é gago. Sabes que concordo a 100% contigo, o mal de hoje em dia é que as pessoas preocupam-se muito com a vida dos outros em vez de se preocuparem com a sua (mesmo que digam "ai não quero saber"). Cada um faz o que quer com o dinheiro que ganha, todos sabemos que existe uma crise mundial mas não é por causa disso que vai deixar de existir poder económico.

    ResponderEliminar