AD INFINITUM | 03

Esta é uma questão delicada que divide opiniões e que nos coloca num daqueles debates acesos que eu adoro. Infelizmente, ainda é um tema que nos oferece apedrejamento directo em praça pública seja qual for a nossa visão. Somos presos por ter cão e presos por não ter. Somos condenados por não defender o aborto e julgados por defender o poder decisório. Há quem compare o procedimento em questão com a crueldade dum homicídio. Há quem diga que a pílula do dia seguinte provoca o mesmo efeito. Há quem defenda que uma gravidez só deve ser interrompida em caso de violação ou crime sexual e há quem diga que as consequências devem ser enfrentadas quando a mesma foi gerada por falta de cuidado ou estupidez. São opiniões e, entre muitas, podem ver aqui a da Ana Garcês. Eu cá digo que o aborto não pode ser comparado ao acto de tomar um comprimido para a dor de cabeça (é um procedimento ponderado, senhores, não é assim tão simples!) mas também não me parece tão criminoso como um assassinato de ódio e crueldade.

Os textos falaciosos que vou lendo a favor da penalização desta prática não me convencem. Não defendem uma perspectiva com argumentos válidos e não modificam o meu ponto de vista porque apenas insultam quem contraria a sua premissa. Tentam alterar a opinião pública mas fazem-no através do choque e essa é uma forma de manipulação que está longe de me conseguir cativar. Incomoda-me que as pessoas tratem questões tão delicadas de forma tão obsessiva, que façam petições suportadas por textos arrepiantes e que formulem toda uma novela mexicana à volta da lei que existe em Portugal.

Eu sou a favor do poder de decisão. E, nesse sentido sou a favor da despenalização do aborto. Do poder de escolha suportado pelo período obrigatório de reflexão. Da lei que me dá o controlo sobre o meu próprio corpo se eu alguma vez tiver necessidade disso. Sou a favor do aborto nesse sentido. Não defendo a prática (nem tão pouco a vejo como um método contraceptivo, como já li algures) mas também não a condeno. Há casos e casos, pessoas e pessoas. Cada situação é uma situação e nenhuma delas tem a ver comigo ou com aquilo que posso prever até eu estar, efectivamente, nesse lugar. Felizmente, a lei é restrita o suficiente para não haver abusos e abrangente o suficiente para reduzir os abortos clandestinos. Não sei se esta nítida mudança de mentalidades é positiva e receio que haja uma banalização do procedimento mas isso só o tempo dirá. Em 2007 venceu o "sim". Será que em 2014 voltaria a vencer?

11 comentários:

  1. eu sou a favor do poder de decisão, do aborto. não julgo quem o faça, mas eu não era capaz de o fazer. parece um bocadinho contraditório, eu sei...

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  2. Eu sou a favor do aborto, não faço ideia se algum dia seria capaz do fazer, mas sou a favor de poder tomar essa opção se algum dia precisar!

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  3. Eu sou a favor da despenalização do aborto, sempre fui. Não sei se seria capaz de o fazer mas acho que nós, como mulheres, devemos ter direito a escolher. Acho que os casais merecem ter essa opção caso achem que é o melhor.

    Tive grandes discussões com um amigo católico fervoroso e ainda hoje ele vê o aborto como um homicídio. O que muitas pessoas não compreendem é que o aborto não é uma decisão simples. As mulheres (e os homens) não esquecem o que se passou. Prova disso é que uma colega minha fez, no secundário, um aborto e ainda hoje se lembra disso.

    Despenalizar o aborto não é o mesmo que dizer às mulheres "força, façam o que quiserem sem protecção", até porque eu não concordo que se faça um aborto só porque sim. Despenalizar o aborto é aumentar o leque de opções que uma mulher, e um casal, têem caso não queiram o bebé que geraram. Não vejo mal nenhum nisso. Mais mal vejo em ter um filho só porque sim e tratá-lo mal. E contra isso não se erguem tantas vozes, infelizmente...


    Bom tema. Gostei ;)

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  4. Quase todas as razões que alguém usa para abortar são válidas, seja por violações/abusos, doenças congénitas, situações risco para a progenitora, etc...mas lá está, é bom que o aborto não se torne uma prática comum (porque também é perigoso), não pode se tratado como tal e as pessoas têm que ter a cabeça no devido lugar para que isso não tenha que acontecer.

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  5. Eu não era capaz de o fazer, mas não julgo quem o faça até porque penso como tu, se as pessoas não tem condições mais vale a pena não ter a criança. Não vale a pena a ter para depois ser mal tratada e não ter as condições necessárias e tudo aquilo que precisa ou até ir para uma instituição.
    Mas também admito que me mete uma certa confusão saber que os abortos são feitos porque adoro bebés. Mas o poder de decisão tem de existir e cada um é livre de escolher aquilo que acha melhor para a sua vida.

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  6. Sou a favor. Acho que não vale a pena uma criança nascer sem ter a devida atenção dos pais (que por vezes são bastante novos, ou então são toxicodependentes), não vale a pena, sinceramente. Cada um escolhe o seu caminho.

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  7. concordo contigo. sou a favor da despenalização, as pessoas querem ter liberdade mas tmb querem privar a dos outros ou até mesmo a sua

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  8. Eu sou a favor do aborto. Mas não sou a favor daquelas mulher que fazem 10 abortos num ano. Acho que deve haver um limite. Há pílula grátis, há preservativos... Pronto, pode haver um descuido e para isso serve o aborto, mas 10 descuidos? Isso já é passar das marcas. Deve haver um maior controlo dessas mulheres que estão constantemente a fazê-los.

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  9. Sou a favor só numa situação extrema como em caso de violação. :) *

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  10. Um filho, pode não ser planeado mas deve, sem dúvida, ser desejado (pelos dois). Fazer uma interrupção da gravidez, é algo delicado e difícil. Claro que quem não o fez, ou nunca teve que tomar essa decisão, diz, prontamente, que não seria capaz. Eu também 'nunca seria capaz', até que o fiz. A minha decisão não foi fácil, e até hoje, não me sinto de consciência leve. Posso sentir-me infeliz, mas sei que, quando chegar essa altura, quero ser uma boa mãe. E naquela altura, não o seria, certamente. Pensei, não só em mim, como no futuro que iria dar ao meu filho. E eu não sou apologista do "Há sempre comida para mais um".
    Tive os meus motivos e, para mim eles são suficientes. Mesmo antes de o fazer, sempre pensei que ninguém tem o poder de julgar ninguém, porque a vida (consciência) encarrega-se disso e, bem ou mal, todos sabemos o que fazemos

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  11. Bem... Eu sou contra.
    Mas antes que me interpretes mal, explico porquê. Sou a favor de que temos o direito de tomar as nossas decisões e de saber como levar a nossa vida. Sou a favor de que quem manda no corpo de cada um somos nós mesmos.
    O problema é esse. Sim, se um casal não estiver preparado para ter um filho e não o quiser mesmo, eles é que sabem. Mas tenho sentido nojo de quem toma a despenalização do aborto como uma medida fácil para sexo gratuito. Desde que o aborto é legal em Portugal eu já perdi a conta do número de mulheres que vão ao hospital mais próximo, sentam-se na sala de espera e saem de lá com o aborto feito. E se for preciso vão lá no mês a seguir. E viram-se para mim com a lata, "ah, é mais fácil do que comprar preservativos".

    Daí ser contra. Sou a favor de que temos o direito de decidir as nossas vidas, mas não sou a favor de usar a despenalização do aborto como um método contraceptivo e um show de irresponsabilidades horrendo. E da mesma forma sou contra obrigarem as mulheres a abortarem "só porque já é legal". Como já disse, é a mulher que deve poder tomar essa decisão.

    Sei lá é um tema confuso. E depende do ponto de vista. Mas depende muito, mesmo.

    Beijinhos

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