VIDA ACADÉMICA | O Lado Prático da Questão

Por muito aplicados e interessados que sejamos, por muito competentes que sejam os nossos professores e por muito completo que seja o nosso plano curricular, o trabalho no terreno é a ferramenta para a aprendizagem e, infelizmente, é algo que falha no Ensino Superior Português.

Podemos conhecer - como alunos que somos - as saídas profissionais que a nossa licenciatura nos proporciona, podemos aprender com os nomes mais fantásticos da área e podemos até ter acesso a experiências controladas dentro do laboratório mas, na prática, nada sabemos. Não sabemos lidar com os clientes ou os utentes, não temos uma ideia concreta das exigências do trabalho que ambicionamos e, na maior parte das vezes, nem sequer sabemos que opção profissional tem mais a ver connosco já que as nossas experiências se baseiam em simulações e suposições. Não há nada de real, nada que nos obrigue a melhorar - inevitavelmente - a cada dia. E perante isto eu pergunto: como é que podemos dizer que estamos no curso certo se não pisámos, sequer, o mercado de trabalho que (pensando positivo) nos acolherá? Como é que podemos dizer que queremos ser arqueólogos ou advogados se estamos sempre atolados em livros e nunca temos acesso ao meio? Como é que esperam que sejamos competentes se nunca somos colocados à prova? Como é que podemos ser despachados e automáticos se nunca tivemos a oportunidade de entrar no ritmo e de conhecer verdadeiramente bem uma empresa? É aqui que o Ensino Superior falha. Nós só começamos a aprender tudo ao pormenor quando as nossas necessidades assim o exigem. Só retemos a informação que nos é útil. Como é que um aluno de segundo ano pode dizer que vai adorar ser jornalista se só conhece experiências alheias e se nunca trabalhou numa redacção sob pressão? Como é que podemos formular opiniões se tudo o que temos são expectativas, sonhos e imaginação?

O Ensino Superior Português não promove a observação, a experiência e a entrada - atempada - no ambiente profissional. É triste. É ridículo um aluno ter que esperar até ao terceiro ano para praticar conhecimentos se não der corda às sapatilhas ou se a sua Faculdade não promover estágios facultativos que o desafie (como, felizmente, a minha promove). Na maior parte dos cursos há muita teoria e pouca prática e isso, meus amigos, é um erro. Os estágios deviam ser obrigatórios em todos os anos de todos os cursos. É a minha opinião, vale o que vale.

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15 comentários:

  1. eu ainda estou no ensino secundário e tenho medo que isso aconteça. Agora tenho apenas uma pequena noção do que gosto, e se isso mudar? E se me aperceber tarde de mais por existir falta de experiências práticas? Acho que todos os alunos têm esse medo, o que nos torna cada vez mais indecisos quanto ao rumo da nossa vida :/

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  2. eu ainda estou no secundário, 11º ano de ciencias e tecnologia, e sei muito bem o que quero se: bióloga. Mas, mesmo indo para a faculdade, claro no futuro, estarei eu preparada para ser biologa? Claro que o meu curso vai exigir estágio mas não sei se vai ser assim que me vou preparar. Pessoalmente, interiorizo melhor as coisas na pratica do que nos livros

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  3. Acho que depende das faculdades, também.
    Eu estou num politécnico e temos muita componente prática e somos "atirados aos leões" logo no primeiro semestre quando nos mandam ir fazer reportagens apenas com as indicações de n.º de caracteres.
    Mas, claro, duvido que haja alguém que saia do curso preparado para o mercado de trabalho a sério - nisso concordo contigo.

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  4. Percebo o teu ponto de vista mas gostava de acrescentar a minha experiência como aluna de Medicina (a meio do curso). Na minha faculdade temos estágios logo a começar no 1º ano, temos aulas práticas em laboratórios e alguns modelos anatómicos para estudar. As aulas são quase todas dadas por médicos o que nos permite conhecer melhor a prática clínica pois muitas vezes são leccionadas a partir de casos clínicos dos próprios médicos. Ainda assim, por vezes, sinto que existe muita teoria que poderia ser simplificada caso o método de avaliação se tornasse mais prático. É um longo caminho a percorrer mas de ano para ano o curso vai-se tornando melhor e os erros vão-se corrigindo (salvo seja!). Considero-me uma sortuda porque para além do currículo obrigatório do curso existem imensas possibilidades de experimentar várias especialidades ou até trabalhar em investigação. O que importa realçar é que nada nos vem parar às mãos mas as oportunidades existem e estão lá para serem agarradas por quem se interessa. Às vezes basta falar com um professor sobre a possibilidade de fazer estágio num serviço e ele deixa, outras vezes temos nos dirigir ao laboratório e perguntar se existe algum projecto de investigação no qual possamos participar. É tudo uma questão de olhar à volta e ter a curiosidade para experimentar e pedir a um responsável. Na maioria das vezes a resposta é sim e se não perguntarmos nunca saberemos :)

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  5. Carolina, eu não digo que as oportunidades não existem (porque existem, especialmente quando são trabalhos não-remunerados). Eu só digo que essas experiências deviam fazer parte do plano curricular dos cursos, tal como acontece para os alunos de Medicina e Enfermagem (pelo menos os meus amigos têm esses estágios e experiências de forma obrigatória, não sei se isso varia de Instituição para Instituição, deves saber melhor do que eu). Eu sou a favor dessa ideia de "abrir as nossas próprias portas". Aliás, tratei disso esta semana para o fazer por mim mesma no próximo ano... A questão é que, quem não aproveita e não o faz dessa forma, acaba a licenciatura com menos capacidades práticas que um aluno de 12º ano dum curso profissional da mesma área. É muito triste que no Ensino Secundário tenham dois e três estágios e no Ensino Superior não sejam igualmente obrigatórios... é claro que os conhecimentos gerais não são comparáveis e, na teoria, um aluno universitário tem uma melhor preparação mas penso que deu para perceber o que eu quero demonstrar :)

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  6. Os do politecnico para alem de terem componente teorica, tambem têm uma grande componente pratica onde nos obriga a ir mais alem das pesquisas bibliograficas. Acho este cenario bastante fundamental para um bom caminho profissional pois ja teremos uma ideia em como enfrentar o mercado de trabalho. Obviamente que vai de curso para curso e de Instituiçao para Instituiçao. Varia. E claro, ha coisas que devem ser melhoradas no geral do Ensino Superior Portugues. Sou da mesma opiniao que tu. Ha cursos que nao têm estagios ou outras avaliaçoes abrangentes e relevantes, pelo que pode haver dificuldade no exercicio do trabalho profissional. Isto devia mudar.

    Ps: Desculpa por escrever sem acentos, mas estou no telemovel e é dificil devido ao tipo de tecla que tenho.

    Bjinhos ;)

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  7. Descobri esta semana que na Suiça o método de ensino é até ao 9º ano aulas regulares e depois têm 3 anos de estágio REMUNERADO divididos da seguinte forma: 3 dias de trabalho regular e 3 dias de aulas teóricas. Quem escolhe o estágio que quer fazer é o aluno e pode ser desde administração em grandes empresas até enfermagem e outros serviços ligados à saúde. Só depois desses 3 anos é que vão para a Faculdade, especializando-se. Há quem nem sequer chegue a fazer a Faculdade porque já subiu carreira através do estágio. E nós aqui nem aos 20 entraremos em contacto com a nossa área e ainda iremos ter estágios não remunerados. Somos altamente escravos. Quando soube disto por uma amiga minha que está a morar lá a minha alma ficou parva...

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  8. Falam sempre tão mal dos Politécnicos, mas eu estou num, e tive trabalho de terreno no segundo semestre deste meu primeiro ano. e sim é fundamental, e devia existir em todos os cursos e faculdades, para ajudar os alunos a decidirem melhor se é realmente aquilo que pretendem!

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  9. Num mundo ideal, haveriam estágios em todos os anos do curso, mas infelizmente em muitas áreas não existe oferta nem para os que se formam quanto mais para os que ainda estão a estudar. Parte muito da iniciativa própria e da sorte em encontrar uma oportunidade.

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  10. " A questão é que, quem não aproveita e não o faz dessa forma, acaba a licenciatura com menos capacidades práticas que um aluno de 12º ano dum curso profissional da mesma área. É muito triste que no Ensino Secundário tenham dois e três estágios e no Ensino Superior não sejam igualmente obrigatórios"

    Tens toda a razão e por vezes existem pessoas que não conseguem ver tão bem as oportunidades como outras e por isso não as aproveitam. Para além da obrigatoriedade de estágios devia haver um incentivo por parte do corpo docente para os alunos procurarem ir mais longe na sua área.

    Em relação aos cursos profissionais (equivalentes ao secundário) vs. curso universitário sei que muitas vezes alguns se sobrepõem e percebo-te quando referes "A questão é que, quem não aproveita e não o faz dessa forma, acaba a licenciatura com menos capacidades práticas que um aluno de 12º ano dum curso profissional da mesma área". Penso que o problema está mesmo nesta sobreposição de conhecimentos entre dois cursos que dão um grau de ensino diferente. Parece-me injusto duas pessoas com o mesmo conhecimento obterem grau de ensino diferente porque escolheram instituições diferentes. Não estou muito dentro deste assunto mas sou da opinião de que existem cursos no ensino superior que deviam seguir mais a estrutura de um curso profissional no sentido mais prático de aprendizagem.

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  11. Eu tive a sorte de ao longo do meu curso ter diversas aulas práticas mas, mesmo assim, senti que eram muito limitadas. Basicamente direcionavam-nos para a advocacia e quem quer seguir outras vias, como é o meu caso, sente-se completamente perdida quando se entra no mercado de trabalho pois apesar de saber a teoria, não conhece a prática. O nosso ensino falha muito nesse aspeto :)

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  12. Tens toda a razão, Carol. Felizmente, o meu curso é bastaaaaante prático!
    Beijinho*

    R: Desculpa, Carol... Eu tentei organizar as fotografias de outra maneira, mas foi impossível. Podia ter cortado noutro local, mas aquilo ficou automaticamente assim. Dá para ter uma ideia geral que é, no fundo, o que pretendo. Esta montagem é só um cheirinho, depois tem um link para a imagem completa! Não te chateies comigo, sim? XD

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  13. Concordo completamente contigo, eu sinto o mesmo e sendo o meu curso tão polivalente não sei o que realmente quero seguir e sinto que o estágio não me vai ajudar muito nesse departamento porque não sei em que área quero estagiar!

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  14. Hum, sim, por um lado tens razão, existem cursos que não passam de teóricos.

    Eu tenho certas cadeiras que os professores nos dizem servirem apenas para estimular o raciocínio, a verdade é que é importante que isto não morra na nossa área (números), mas como é evidente não vou precisar daquilo para... nada.

    No entanto nós temos trabalhos práticos, nos quais nos é dado um prazo e um simulação de um caso real, não ficamos mestres, como é óbvio, mas também ninguém o fica de um dia para o outro.

    Em Medicina Dentária por exemplo sei que isto também acontece.

    Penso que não seja assim tão linear, afinal de contas não vais por um aprendiz de contabilista (que num trabalho não vai além do 12) a fazer a contabilidade de uma empresa a sério para começar...

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