TEMPO DE ANTENA | 04.09.2023

"Sinto-me mais madura. Dou muito mais uso aos meus saltos altos. Saio mais à noite. As discotecas continuam a ser um sítio que não suporto. Jantares. Jantares com velhos amigos - os resistentes - isso sim faz mais o meu género. Jantares que demoram horas. E não, não é porque o bacalhau se atrasa. São as nossas vidas. Preencheram a mesa. O nosso passado reúne-se no centro. O nosso presente está a ser servido. E o futuro? Esse vem sempre à tona como uma sobremesa pela qual esperamos ansiosamente. Ainda nenhum de nós fez as pazes com o despertador. Desde o secundário que detestamos ouvi-lo. Pelo menos isso não mudou. Os rostos deles envelheceram. Mas para melhor. Sempre me perguntei se isso podia acontecer-nos. Cada vez mais autênticos como o vinho do porto. O perfume de cada um é diferente. O estilo de vestir tornou-se mais arrojado. E os seus corações pertencem agora a um alguém. Quem diria que passados estes anos, o tema central "Onde vamos passar férias este ano?" fosse substituído por "Vou casar-me daqui a alguns meses e quero-vos a todos lá.". 

Continuo a adorar café. Aliás, foi ele que me salvou nestes nove intensos anos que o meu curso me levou. Mantive a minha obsessão por maquilhagem - base, rímel, eyeliner e voilà, consigo sentir-me eu de novo. Vivo num pequeno apartamento, no centro de Lisboa. Não me canso da cidade. Todos os dias a admiro como um quadro em constante movimento. Cá, as pessoas não são como as do Norte. Não olham para nós de frente. Não querem saber se temos um novo carro ou um novo amante. Não. Vivem de si, para si. E isso até que me agrada. No Norte, são muito acolhedoras, mas têm uma veia como direi? muito imaginativa. 

Não me canso da cidade. Gosto de percorrer o Terreiro do Paço, sinto-me repleta de vida, de espaço. Continuo a valorizar o meu espaço. Continuo a ser muito independente e amorosamente exigente. Talvez seja por isso que continuo a ir a casamentos. E o pior é que nenhum deles é o meu. 

Drama à parte - continuo a suavizar assuntos, evitando-os - a minha vida é boa. Sinto-me feliz. Talvez um nada incompleta. Mas sinto que continuo verdadeira, genuína, eu. No topo das prioridades permanece a minha família. Coloco-a lá, desde sempre. A minha mãe abriu recentemente um novo salão, depois de tirar uns quantos cursos de cosmética. Consegui concretizar esses seus pequenos e adiados sonhos, com aquilo que fui poupando ao longo destes anos. O meu pai decidiu apostar num curso de Economia. Sempre achei que os números lhe sorriam mais do que chávenas de café. O meu irmão gémeo é agora engenheiro. Continua a ser o único com a capacidade de me levar às lágrimas sempre que diz uma piada. Arranjou-me finalmente uma cunhada que eu aprovo. 

Nove anos e o que mudou foi apenas aquilo que fazemos e não o que sentimos uns pelos outros. Há coisas que o tempo não leva, se as mantivermos juntas a nós."

;-)

Inês Vivas, She Was Here.

10 comentários:

  1. Adorei. Possivelmente o meu favorito da rubrica até agora

    ResponderEliminar
  2. Adorei a ideia das rubricas e esta em particular! :)

    ResponderEliminar
  3. Que lindo . Deixou me a pensar..
    Beijinhos,
    Sofia

    ResponderEliminar
  4. Adorei o texto, deu-me uma certa nostalgia.. uma certa vontade de aproveitar mais os tempos de agora.

    ResponderEliminar
  5. A Inês é fantástica e escreve incrivelmente bem! :)

    ResponderEliminar
  6. a tua forma de escrever é mindblowing :O, adorei cada palavra, muitos parabéns, vou ficar à espera de mais posts deste género

    beijinhos
    http://umacolherdearroz.blogspot.pt/

    ResponderEliminar
  7. Os textos desta rubrica sao muito pesados...

    ResponderEliminar