Thirteen

TEMPO DE ANTENA | Se o Fitzgerald Me Ouvisse*

"Acho que te vais chatear comigo se eu te disser que o teu toque já não me é familiar. Que me esqueci qual dos teus olhos ficava mais pequenino quando sorrias. Que a tua voz está amortecida no meio das minhas memórias. Que já não consigo dizer com certeza a cor dos teus olhos mas que sei que têm um raiozinho de amarelo pelo meio. Que meti o livro na prateleira, após uma breve vírgula, mas com resolução de não querer esperar infinitamente por mais um capítulo. Que pensei que tinhas levado o melhor de mim quando te foste. Que nunca mais ninguém vai cheirar como tu: a mar, a fresco e a sol. Que me custou um braço e uma perna me afastar de ti. Que já não reconheço o teu fumo de tabaco. Que foste um grande amor.

Mas não penses que te esqueci. Nunca o vou fazer. E, para bem ou para mal, vais sempre habitar na minha memória ao longo do espaço e do tempo. Vão existir sempre as recordações dos olhares que trocávamos quando estávamos em lados opostos de uma sala. Vai haver sempre a electricidade e o facto de conseguirmos sempre conversar sobre algo sem medos. Mas já não há o despertador que tocava a horas impróprias de manhã, nem as minhas mãos frias nas tuas costas para te obrigar a levantar. Vai existir sempre aquele momento só nosso em que me rodopiaste na cozinha. Mas nunca mais me vais mandar flores nem nunca mais me vais aparecer à frente, sem eu esperar, e quase me provocares um ataque cardíaco. Existirão sempre aquelas piadas só nossas que me vou sempre lembrar em momentos específicos que quereria partilhar contigo de imediato. Mas nunca mais ninguém me vai carregar ao colo até ao carro só porque o meu joelho está a dar numa de sacana. Nem os teus grandes discursos sobre um qualquer idiota do governo enquanto conduzias.

Por muito que eu não queira, um pedaço de ti vai-me sempre pertencer e um pedaço de mim vai ser sempre teu. Vou-te aparecer na memória no dia que vires uma rapariga dançar no meio da rua - sem vergonhas - para uma música que está a tocar só para ela. Ou quando vires alguém a andar na rua com um livro debaixo do nariz. E eu vou-me sempre lembrar de ti quando ouvir o som de saxofone. Ou quando a Aurea tocar na rádio. É algo com que vamos ter que viver e lidar e não nos sentirmos tristes por isso.

No fim disto tudo apercebi-me que, afinal, o melhor de mim ninguém pode levar e ninguém pode tirar. Que tabaco é só tabaco (e que continuo sem gostar dele). Que guardo as coisas boas e os bons momentos com carinho e que decidi esquecer as coisas más. Que o amor foi algo que nos aconteceu, mas que depois com o passar do tempo e da vida, uma decisão - imposta pelo destino, talvez - faz com que escolhêssemos seguir com as nossas vidas individualmente. E não faz mal. Je suis prest. E tu também.

*Este título deve-se a uma das minhas citações favoritas de Fitzgerald: ”And in the end, we were all just humans… Drunk on the idea that love,only love, could heal our brokenness.”"

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Ana Garcês, Infinito Mais Um.

10 comentários:

  1. R: Sim está tudo!! E contigo está? :p

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  2. Não me lembro da última vez que li algo que me desse vontade de reler uma e outra vez seguidas. Consegui imaginar tudo, como se se tratasse de um filme. Tão puro. Parabéns, está fantástico!

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  3. R: Muito obrigada, Carolina.
    Fantástico texto. Adorei :)

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  4. tá lindo o texto, a prova de que os grandes amores nunca se esquecem!
    beijinhos

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  5. R: Quando acabar o 12º iria trabalhar quer fosse em Portugal ou lá fora. Porque não havia dinheiro para ingressar logo na faculdade. O maior problema para mim não é esse, é mesmo ter que abandonar o meu país. Custa imenso, até posso vir a gostar mais tarde e essa mudança pode trazer-me coisas ótimas, enquanto isso, custa. Mais tarde logo resolverei o que fazer quanto à universidade. Obrigada pelas palavras e apoio. Beijinhos

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  6. Tão bonito o texto. Ainda por cima faz referência a um autor que adoro. :)

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  7. Está lindo :')
    http://i-set-my-world-on-fire.blogspot.pt/

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