Thirteen

TEMPO DE ANTENA | Irmandade

"Quando tinha três anos e me disseram que ia ter um irmão, ainda era muito nova para compreender o que isso significava. Dizem que escolhi o seu nome, mas deve ter sido uma daquelas escolhas sugeridas primeiro por alguém. Ainda assim, era uma miúda quando o vi pela primeira vez ao chegar a casa, enrolado em cobertores. Não me lembro de muitas coisas com essa idade, mas sei que ver aquele bebé, com quem iria ter mil e uma brincadeiras, foi uma espécie de presente de Natal atrasado. Um presente para o resto da vida. 

Em miúdos sempre brincámos juntos. Eu era a mais velha e a espalha-brasas que queria mandar nas brincadeiras todas, enquanto ele era o rapaz calmo e adorável que não fazia tantos disparates. Aprendi a andar de bicicleta sem rodas e pouco tempo depois o meu irmão também já conseguia fazer o mesmo. Ele nunca quis ficar para trás, e mesmo com três anos de diferença entre nós, nunca notei essa mesma distância de idades. Fizemos fábricas de chocolate com lama, esfolámos os joelhos ao cair de bicicleta, passámos horas a fazer buracos na areia que tivessem profundidade suficiente para cabermos lá dentro, engolimos muita água salgada a apanhar ondas. Os nossos pais nunca nos compraram coisas individuais para cada um, por isso sempre partilhámos tudo, desde a PlayStation (as horas que perdemos a jogar Vice City e Eye Toy) ao balde em forma de castelo para levar à praia. Como irmã mais velha não deixava ninguém meter-se com o meu irmãozinho e protegia-o o mais que podia. 

No entanto, nem sempre fomos os irmãos mais unidos. Veio a maldita adolescência para ambos, cada um tinha os seus amigos e andávamos em escolas diferentes, e isso fez com que nos afastássemos durante um tempo. Eu não conseguia falar com ele porque o achava infantil. Ele, provavelmente, achava-me uma insuportável de mau humor com a mania que era crescida. Ainda assim, sei que estávamos atentos um ao outro. Eu não gostava da nova escola nem da nova morada, mas parte de mim ficava feliz por ver o meu irmão a gostar do novo colégio, a fazer amigos e integrar-se. Eu não estava bem, mas ao menos o meu irmão estava, e isso fazia com que as coisas não fossem tão difíceis para mim. 

Sempre me disseram que, passada a idade da parvalheira, os irmãos voltam a aproximar-se, mas nunca tomei isso como verdade absoluta. No entanto, o último ano veio provar-me que estava errada. Voltámos a aproximar-nos aos poucos porque ele iria entrar na faculdade e estava perdido sem saber o que escolher. Ajudei em tudo o que pude e apoiei todas as decisões que tomou, mesmo quando decidiu por um caminho que depois trocou. E ele, mesmo de forma inconsciente, tem contribuído para que eu seja mais responsável, mais atenta e não ande a passear na vida só porque sim. Tem feito com que eu queira ser melhor. 

Tenho muito orgulho naquele miúdo que agora até é mais alto que eu. Tenho orgulho no bom rapaz que é, na maneira educada como trata os outros à sua volta, na pessoa esforçada e trabalhadora em que se tornou. Passamos horas a falar de coisas aleatórias, algo de nunca acontecia. Não sei como vai ser quando já não partilharmos a mesma casa, quando não bastar ir ao quarto ao lado para falar com ele ou quando não o vir todos os dias. Não penso nisso muitas vezes, mas quando o faço é como se estivesse a perder alguma coisa. Dói crescer. E é estranho separar-me de alguém com quem vivi todos os dias e de quem sou tão próxima. É inevitável isso acontecer, bem sei. Fica a certeza de que, por muitas voltas que tudo dê, a irmandade vai sempre existir."

Tumblr

8 comentários:

  1. Eu adoro o meu irmão (sou a mais nova e temos 5 anos de diferença) e apenas nos começamos a dar bem em 2011, porque tive saudades dele e não se sente saudades por alguém de quem não gostamos e a nossa relação só tem vindo melhorar. A mim também dói pensar no dia em que um de nós deixa este lar, a sério, fico mesmo triste, mas não podemos ficar aqui para sempre

    ResponderEliminar
  2. Eu tenho um irmão que é mais novo que eu 9 anos e essa diferença de idades faz com que não sejamos tão próximos quanto eu gostaria. Quando ele começou a ter idade para brincar já eu não gostava de brincadeiras, depois entrei na adolescência e não tinha paciência para brincadeiras de criança (fases estúpidas não é? xD) entretanto entrei na faculdade e ele é que está na adolescência e enquanto eu o acho um irresponsável e demasiado mimado e mal educado ele acha-me a pessoa mais chata à face da terra que anda sempre a tentar incutir-lhe valores que, a ver dele. não servem para nada... Vou esperar para ver como será quando ele passar a estúpida fase da adolescência xD pode ser que então, aí, finalmente nos aproximemos

    ResponderEliminar
  3. É realmente verdade. Aconteceu o mesmo com a minha irmã.
    Assim que a adolescência passou, aproximamo-nos, também derivado às circunstâncias da vida...

    ResponderEliminar
  4. Também sinto o mesmo quando penso que um dia não vou viver com a minha irmã mas, como disse ela e bem, tem que ser, é o crescimento... Talvez nos habituemos :)

    ResponderEliminar
  5. Senti as mesmas coisas quando tive os meus irmãos mais novos!

    ResponderEliminar
  6. Adorei o texto!! Tenho tantas saudades de quando eu e o meu irmão (que é apenas 14 meses mais velho que eu) éramos unidos. Ainda tenho esperança de que voltemos a algo parecido daqui a uns anos.

    ResponderEliminar