TEMPO DE ANTENA | Ensino Superior: Medicina

"Quando naqueles dias em Agosto me candidatei à faculdade, eu pouco sabia o que queria para a minha vida. Por acaso tinha uma boa média, os exames tinham corrido bem, podia escolher quase tudo, que entraria. Não fui como aquelas pessoas que dizem que desde que se conhecem que querem ser médicas; o meu amor pela Medicina foi-se construindo. Não foi amor à primeira vista, muito pelo contrário. 

Se calhar, tal como vocês que se vão candidatar agora, naquela altura eu pouco sabia do curso de Medicina. Sabia que seria médica ao fim de 6 anos e pouco mais e sabia que gostava de ir para Coimbra.

Sou suspeita claro. Coimbra é das melhores (e das piores ao mesmo tempo) cidades para se estudar. Tem tradições que mais nenhuma cidade tem, é literalmente a cidade dos estudantes, é vê-la tornar-se uma calmia imensa no fim-de-semana e em Agosto e tornar-se um mar de capas negras em Maio na semana da Queima das Fitas. E quando se escolhe o curso a candidatar, além da qualidade do curso em questão, é muito importante o ambiente em que se quer estar. É uma época difícil, em que de repente se vêem com responsabilidades que até então não tinham. Aconselho sempre a saírem de casa; é uma óptima altura para se tornarem “um bocadinho mais crescidos”. Talvez os vossos pais não gostem desta minha ideia, mas quando vos virem a crescer vão perceber o que estou a dizer. 

Posto isto, começo por vos falar de Medicina. São 6 anos de Mestrado Integrado, 3 anos de Ciências Básicas da Saúde (anatomias, biologias, fisiologias), 2 anos de especialidades médicas (a maioria do que se lembrarem) e 1 ano de estágio inteiro. No fim dos 6 anos têm um exame de admissão à Ordem dos Médicos, caso queiram exercer em Portugal. Depois vem o Ano Comum (até agora é assim) e depois vem a especialização, que podem ser de 4 a 6 anos consoante a especialidade que queiram. Por isso, sim, Medicina é difícil e exige muito de nós, muitos sacrifícios, muitas festas perdidas, muitas noites mal dormidas, muita matéria, muitos exames. Mas eu gosto de pensar que todos os cursos têm a sua dificuldade e o meu é mais um neste mundo da Universidade. 

Agora que passou a parte má, vou-vos explicar tudo aquilo que me fez continuar. Se gostam de chegar ao fim do dia e perceber que a vossa actuação mudou de alguma forma a vida de uma pessoa que estava doente, se gostam da interacção humana, de trabalhar em equipa e de perceber como funciona o corpo humano e depois como se adoece, venham. Tenho todo o gosto em ver os novos caloirinhos a cada ano! A Medicina tem múltiplas vertentes, desde a mais ínfima molécula, a célula, o órgão, o sistema, até à pessoa e todo o ambiente que a rodeia. Vocês têm possibilidades em cada parte que vos disse. Apesar de ser difícil, existe muito boa investigação médica em Portugal. Têm as especialidades generalistas se quiserem ver a pessoa como um todo, Medicina Geral e Familiar, Medicina Interna, Pediatria (caso gostem de criancinhas), têm as especialidades médicas (imensas; desde Gastroenterologia a Hematologia, Nefrologia,…), as especialidades cirúrgicas (Cirurgia Geral, Oftalmologia, Ginecologia e Obstetrícia,…), as especialidades quase só diagnósticas (Radiologia, Anatomia Patológica) e as especialidades mais da comunidade (Saúde Pública, Medicina Legal), entre outras. Por isso sim, no fim de contas somos médicos mas podemos ser muito mais do que Médicos. 

Emprego. Infelizmente em Portugal começa a ser uma área difícil, por muito que achem que não. Mas não está fácil em quase todas as áreas, e quando gostamos do que fazemos e somos felizes, vamos à luta nem que seja do outro lado do mundo. A vida como médico é intensa, tens muitas vezes a vida do doente nas mãos, muitos doentes que dependem (um pouquinho ou muito) de ti, és tu que lhes dás esperança, sem dar falsas realidades. Muitos doentes não percebem o esforço que estás a fazer por eles, noites mal dormidas, urgências a abarrotar, consultas em tempo mínimo. É muito difícil ver os doentes assim e muitos nem fazem nada daquilo que vocês lhes dizem. Mas eu continuo a achar que é das profissões mais nobres do mundo e, hoje, não trocaria o meu curso."

Meredith💙💜

Bárbara Marques, Aluna do Quinto Ano do Mestrado Integrado em Medicina na Universidade de Coimbra.

[Se tiverem dúvidas ou questões podem deixá-las na caixa de comentários. A Bárbara irá responder às vossas perguntas no mesmo espaço assim que possível.]

Outra perspectiva sobre Medicina: AQUI

10 comentários:

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    1. Penso que não, Sofia. Mas já lhe enviei uma mensagem a confirmar. Se o blogue realmente existir acrescento à publicação a hiperligação :)

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    2. Então fico à espera para saber a resposta! Obrigada Carol, espero vir com muito para dar :)

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    3. Olá Sofia. Não eu não tenho blog mas posso esclarecer o que precisares :) beijinho

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  2. Bem, mas que coragem e aptidão para este curso. Vê-se mesmo que estás lá por amor à camisola. Beijinho

    http://giselapascoal.blogspot.pt/

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    1. Obrigado é mesmo isso que quis transmitir porque essa é a verdade :)

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  3. Numa altura em que terminei o meu curso mais precisamente ontem, é sempre nostálgico ver o texto que escrevi há 1 ano... um ano passou e eu já o escreveria de outro modo, quanto mais daqui a mais tempo....

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