Thirteen

TEMPO DE ANTENA | Ensino Superior: Direito

"Nunca soube bem aquilo que queria ser quando fosse grande, mas sabia uma coisa e repetia-a imensas vezes “Não quero ser advogada!”. A minha mãe é advogada e, ao contrário do que poderia ser de esperar, nunca quis que eu seguisse as suas pisadas, bem pelo contrário. Sucedeu que, ainda antes de terminar o secundário em Ciências e Tecnologias, tive a certeza absoluta que essa não era a minha área, pelo que comecei a pensar em Direito, pela primeira vez na minha vida. Apesar de haver outras áreas, também em nada ligadas às Ciências, que me atraíam, rapidamente me decidi que ia concorrer a Direito. Não sabia nada acerca de Direito, nem fiz por saber. Das seis hipóteses que tinha, aquando da candidatura ao Ensino Superior, preenchi uma: Direito em Coimbra. Não só porque foi lá que a minha mãe estudou, mas porque, diferentemente da pergunta “O que queres ser quando fores grande?”, à qual nunca soube responder com precisão, sempre respondi muito rapidamente “Coimbra!” a quem me perguntasse para onde queria ir estudar. Não sei se é a melhor Faculdade de Direito, como muitos afirmam, porque, como costumo dizer, só poderia responder rigorosamente a essa questão se tivesse estudado também nas outras! 

No meu primeiro dia de aulas na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, assisti a uma aula (que mais tarde vim a descobrir ser uma aula que consiste numa “partida” aos caloiros) em que nos foi dito que teríamos de escrever uma composição, naquele momento, acerca dos temas “Troika”, “lazer” e “ilicitude” (penso que foram esses, se a memória não me estiver a falhar!) e que valeria um x na nossa nota final. Foi-nos ainda apresentada uma lista de bibliografia, nas mais variadas línguas, e fomos informados de que esperavam que soubéssemos latim, francês e alemão. “Mal chegue a casa, a primeira coisa que vou fazer é concorrer à segunda fase para outro curso qualquer!”, pensei. Que alívio que senti quando nos disseram que aquela aula não tinha passado de uma brincadeira! 

Infelizmente, não houve mais brincadeiras. O primeiro ano é ridiculamente teórico (tenho a ideia de que isto sucede em praticamente todos os cursos). É composto por dez cadeiras: Direito Constitucional I e II, Introdução ao Direito I e II, Economia Política I e II, Direito Internacional Público I, Direito Romano e História do Direito Português são as nove cadeiras obrigatórias; a décima é optativa, sendo que é possível escolher Direito Internacional Público II, Introdução ao Pensamento Jurídico Contemporâneo ou Inglês Jurídico I (foi esta a minha opção, sem ponderar sequer escolher uma das outras duas). À excepção de Direito Constitucional I e II, que pude fazer por avaliação repartida (duas frequências e presenças obrigatórias) e Inglês Jurídico, em que também as presenças eram obrigatórias e em que éramos avaliados pela participação nas aulas, uns debates e uns trabalhos bastante simples, todas as restantes cadeiras só podiam ser feitas por exame final (a nota do exame é a nota com que ficamos à cadeira, não sendo controladas as presenças nas aulas). Este é o sistema regra. No meu terceiro ano foi assim que fiz todas as cadeiras, porque em nenhuma delas havia a possibilidade de escolha do regime de avaliação repartida. 

No geral, não há cá conversas entre professores e alunos. Nas aulas práticas, leccionadas pelos assistentes, pode haver alguma interacção; já no caso das aulas teóricas, que são dadas pelos regentes das cadeiras, as aulas consistem basicamente em alunos que se limitam a ouvir o professor, que fala quase ininterruptamente. Não há trabalhos (Inglês Jurídico I é, portanto, uma excepção à regra), não há apresentações, não há controlo de presenças nas aulas, como já disse... Ora, isto leva a que facilmente deixemos de ir às aulas e não nos preocupemos em estudar, porque “os exames são só daqui a muito tempo!”. Eu acho que é essa a principal dificuldade do meu curso... Ok, as matérias são difíceis, temos muita coisa para ler, há livros que, à primeira tentativa de leitura, parecem escritos em chinês – no entanto, tudo isso se torna ainda mais difícil quando o próprio método de avalição faz com que só comecemos a estudar quando, na maioria das vezes, já é demasiado tarde. 

Quanto às notas... no geral, são muito baixas. Claro que depende dos professsores, das cadeiras, e, claro, dos próprios alunos! Já vi pautas em que, em mais de cem pessoas, apenas dez ou vinte conseguem ter positiva, mas, calma, não são todas assim! O normal é não haver mais do que quinze, às vezes lá aparecem um ou dois dezasseis. Quem tem oito ou nove pode ir a exame oral de passagem, exame este que, se correr bem, pode transformar o oito ou o nove num dez, onze, doze ou treze... Sendo estas últimas as mais comuns, claro que há casos, mais raros, em que se consegue subir mais! Para além das orais de passagem, existem também orais de melhoria, sendo estas últimas facultativas, para quem pretende tentar subir a nota que obteve no exame escrito. 

Conclusão... É difícil? Sim! É fácil sentirmo-nos desmotivados? Sem dúvida! No entanto, se tiverem interesse e vontade, coragem e dedicação, a menos que tenham muitas dificuldades na expressão escrita e/ou oral ou não gostem nada de ler, arrisquem! A sensação de terminar algo que é bastante difícil dá um gozo indescritível! E, já agora, preparem-se, pois no quarto ano terão de assistir a uma autópsia (e, pelo que me apercebi, a única escapatória possível é fazendo Erasmus nesse semestre!)."


Salomé, Ex-Aluna da Licenciatura em Direito na Universidade de Coimbra.

[Se tiverem dúvidas ou questões podem deixá-las na caixa de comentários. A Salomé irá responder às vossas perguntas no mesmo espaço assim que possível.]

Outra perspectiva sobre Direito: AQUI

12 comentários:

  1. Ainda não encontraste ninguém de Tradução ou mesmo de Línguas para falar aqui? (:

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    1. Línguas sim. Não recebi o texto ainda mas a ideia é que a rubrica dure até Setembro e eu publico os textos por ordem de chegada... (:
      Tradução não conheço ninguém...

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  2. Pelo que li o regime de avaliação e afins é muito parecido ao da FDUP :)

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  3. Agora esqueci-me se já tinha enviado o comentário... -.-
    Bem, eu pondero meter Coimbra na 1ª ou 2ª opção (só tenho Direito), tenho de decidir com as notas e com a análise que vou fazer entre o Minho e Coimbra...O Minho "atrai-me" porque o sistema de avaliação não é totalmente apoiado em exames, como é por exemplo na FDUC e na FDUP...

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  4. Deve ser um curso difícil mas interessante :)

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  5. R: Já tratei do assunto Carolina, e ainda bem que me fizeste ver essa perspetiva. A "Expressões tipicamente nortenhas" é dos post mais lidos do blog, faz todo o sentido ter algum destaque na página inicial :) Do lado direito do blog já podes encontrar a respetiva etiqueta :)

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  6. Ora um post muit bem descritivo daquilo que é a universidade...
    Quem vai lá a preocupar-se com a praxe mal sabe a matéria que espera... Depois até vão rezar para haver praxe xD

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  7. 1- O que pretendes fazer após a licenciatura? Ou achas importante e necessário tirar um mestrado?
    2- Qual era o teu método de estudo durante a licenciatura?
    3- Para se ser um profissional na área tem que se ter mestrado?
    4- Como está o mercado de trabalho para os licenciados em Direito?
    5- Chegas ao final do "caminho" não te arrependes de não ter escolhido outro curso?

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  8. Sempre quis direito, mas não sei como fui parar a Psicologia.Segui*

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  9. Li nos comentários que andavas à procura de estudantes de tradução... Eu estou a estudar Tradução e Interpretação de Português/Chinês - Chinês/Português. Não me importava de dar o meu testemunho, acho que estes textos são fantásticos e dão uma boa perspectiva dos cursos, é um bom trabalho! :)

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