TEMPO DE ANTENA | Ensino Superior: História Moderna e Contemporânea

"O meu curso - que acabei precisamente no mês passado - chama-se História Moderna e Contemporânea. E perguntam vocês porquê esse nome, tão comprido e tão estranho? Estão a perguntar? Passo a explicar… Se gostam de História - como eu gosto, de amor! - e se odeiam de morte - como eu odeio - a Antiguidade Clássica, os Egípcios e as civilizações de lá longe... Se não querem sequer saber da Idade Média... Meus amigos, este é o curso que têm que escolher como primeira opção nas vossas candidaturas. Isto porquê? O meu curso começa apenas na altura dos Descobrimentos, têm ainda uma cadeira que implica levemente partes de Idade Média e é no primeiro ano, mas começa a partir do século XV e navega até aos nossos dias. Está dividido por três anos, sendo que cada ano letivo engloba uma parte da História e o último ano centra-se na Época Contemporânea (o mais apelativo para mim!).

Esta licenciatura tem, como já perceberam, a duração de três anos. Existem 180 créditos ECTS que têm que cumprir ao longo dos mesmos. Alguns fazem parte das unidades curriculares obrigatórias (a maior parte deles, como é lógico) e outros fazem parte de cadeiras que são as chamadas cadeiras optativas - são as que são escolhidas por vocês na altura da candidatura a cada novo ano. A média do curso não é exatamente alta, estando perto dos 13 valores. Os exames para entrada são um de três: Português, História ou História da Cultura e das Artes. E o número de colocados no curso são sempre pouquinhos, não mais de 40 vagas. É por isso que quem entra no curso passa logo a conhecer toda a gente, somos uma família. Somos poucos mas muito unidos. 

Quanto às cadeiras do curso... Não se trata apenas de História de Portugal. O curso engloba cadeiras como História da Europa e História do Mundo e cadeiras como Análise de Dados e Demografia (que os alunos demoram anos a fazer - eu não, fiz no primeiro ano como devia mas não foi exatamente fácil) ou cadeiras com âmbito cultural, com nomes maravilhosos como "História da Europa Moderna" ou "História Moderna Comparada" - nesta abordam os impérios inca, maia, otomano e por aí. Há cadeiras de âmbito mais "estranho" - vá, teórico, e que, ao início, não percebem para que servem (como Metodologia do Trabalho Historiográfico) mas acabam, no último ano, por entender que culminavam todas naquela cadeirona que se chama "Laboratório de História". Nesta cadeira têm que fazer um trabalho, num semestre apenas, e esse trabalho é tudo menos rápido. É a coisa que mais vos dará dores de cabeça no último ano. Foi a que me deu mais trabalho a mim, arrisco-me a dizer, ao longo de toda a licenciatura. Fiz uma investigação numa questão nunca antes estudada por nenhum investigador ou coisa que o valha e quando precisava de auxílio recebia respostas da minha professora parecidas com "não pode basear-se em nada porque a pesquisa está a ser feita por vós" - pelo grupo. É aposta forte neste período de três anos os trabalhos de grupo e é um conselho enorme que escolham o melhor grupo possível porque vão ter muito trabalho pela frente. E se forem como eu precisam de amigos e colegas que vos injetem energia positiva quando se estão a passar porque o trabalho não está a correr como queriam... Sou demasiado negativa por natureza! 

Terão, também, e como já disse, cadeiras de âmbito cultural e económico e de âmbito social. E melhor que isso: podem escolher cadeiras transversais durante o primeiro ano e apenas durante o primeiro semestre; cadeiras como língua espanhola, inglês, técnicas de apresentação, escrita de relatórios. Estas cadeiras só servem para vos dar créditos (os tais que falei em cima) e são parte do grupo de cadeiras optativas transversais. Depois, no segundo e no terceiro ano, têm uma cadeira de competência transversal (novamente) em que podem escolher cadeiras de outros cursos da faculdade. É uma excelente aposta se gostarem de incluir saberes novos em áreas diversas da História, complementando tudo o que aprendem durante cada semestre. Na minha faculdade existem outros 15 cursos para além do meu e podem perfeitamente escolher cadeiras desses outros cursos. Tive cadeiras de Antropologia maioritariamente mas podem escolher Ciência Política, Sociologia, Serviço Social, Gestão de Recursos Humanos... 

Chegando à parte do emprego e das saídas profissionais; ao longo da minha licenciatura eu ouvi muitas vezes aquela questão "E o que vais fazer depois de acabares o curso?", "Quais são as saídas profissionais que tens?" e aquela cara de enjoada da pessoa que perguntava sem perguntar o que eu ia fazer a seguir e dizia em silêncio "vais para o desemprego, coitadinha". Muitos deles até o diziam mesmo a viva voz. 

Primeiro: não vou para o desemprego. Vou continuar a estudar porque sei perfeitamente que com apenas uma licenciatura há montes de desempregados por aí, seja em que área for. Estamos a viver em Portugal, basta olhar para os números. Quanto a mim tenciono aumentar os meus horizontes e escolhi o Mestrado de Estudos Internacionais, que vou começar para o ano. É um mestrado relativamente recente e permitir-me-á alargar os meus horizontes, tal como já disse, e aprender coisas sobre todos os continentes dado que vou ter cadeiras sobre a Europa, a Ásia ou a África. 

Segundo: há várias saídas profissionais para a licenciatura, ou seja, para pessoas que terminam a licenciatura e não seguem para mestrado, tais como, gestão e animação de bens culturais junto de autarquias, museus, arquivos, bibliotecas, fundações e empresas; inventariação e salvaguarda do património; trabalho em órgãos de comunicação social e em empresas editoriais; turismo cultural; trabalho em organizações internacionais ou em departamentos internacionais de empresas, organismos públicos e ONG; produção de conteúdos para televisão, cinema, rádio e Web e organização de eventos e espetáculos. 

Portanto, como veem, existem montes de saídas profissionais para quem termina o curso e não quer seguir para o segundo ciclo de estudos quer porque não se sente preparado, quer porque não há dinheiro para isso, quer por qualquer outra razão. Eu quero fazê-lo e quanto mais estudar, melhor me vou sentir para entrar no mundo do trabalho. No entanto, há pessoas que conseguem logo trabalho a seguir ao curso quer em museus ou bibliotecas e por lá se mantêm. Mesmo apenas com um canudo de licenciado! Aquela máxima do "desempregado" pode existir no meu curso - e, de certeza, que existe - mas não se deixem levar por ela. O importante em tudo isto é o amor; à História, ao curso e à Instituição que vos acolhe. Quando entrarem no mercado de trabalho irão, com toda a certeza, bem mais preparados do que estavam à espera. Não é importante o emprego, o desemprego ou as caras de enjoadas das pessoas que não sabem como será o vosso futuro. O importante é o amor ao curso, os amigos que ficam, a família que constroem lá dentro. Esses ficarão para sempre."

ブランクl | via Tumblr

Blue, Ex-Aluna da Licenciatura em História Moderna e Contemporânea no Instituto Universitário de Lisboa. 

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