Thirteen

TEMPO DE ANTENA | Ensino Superior: Matemática

""Olha lá, mas tu achas que alguém vai ligar àquilo que escreveres sobre o teu curso? Mas Matemática interessa a alguém?" - foi isto que disse a mim mesma antes de começar este texto. Mas olhem, apeteceu-me escrever na mesma, nunca se sabe quem está aí a ler... 

Quando nos perguntam o curso em que estamos, as pessoas esperam ouvir Direito, Economia, qualquer curso relacionado com Saúde, Engenharia, ou qualquer outra variante destes cursos. Ou até podem esperar outras coisas... mas nunca esperam que alguém lhes diga "Matemática". Confesso que tem uma certa piada ver a cara que as pessoas fazem ao ouvir essa palavra tão gira e que causa tanto terror na maioria dos mortais. Nós, Matemáticos, somos bichos tão raros que até nós nos admiramos se encontrarmos alguém desconhecido neste curso ou se alguém nos vem pedir informações por ter a mesma paixão pelos números. Somos uma espécie em vias de extinção e os números de entrada (e, consequentemente, a média) comprovam isso mesmo. Há até quem nos veja como os "maluquinhos da universidade", juntamente com os estudantes de Física - isto por serem dos cursos mais puros que podemos encontrar. 

Por vezes, perguntam-me quando soube que queria fazer da Matemática a minha vida. Eu penso, e chego sempre à conclusão que sei isto desde que me conheço enquanto gente, desde que tive contacto direto com esta disciplina. Não tenho família nesta área, nem coisa que se pareça, e grande parte da minha família tentou pôr a Matemática de lado assim que lhe foi possível fazê-lo. Isto já é uma prova da raridade desta espécie, certo? Afinal, tinha tudo para que a minha relação com a Matemática não funcionasse. Tinha testemunhos dos primos mais velhos que pintavam a matemática como sendo um monstro horrível... só isso já seria o suficiente para deixá-la de lado e simplesmente usar o "ninguém gosta" como desculpa para não me esforçar (como muita gente faz). Fui mais forte do que isso e quis ver por mim mesma que monstro seria esse... talvez tenha sido um ato de coragem, ou talvez tenha sido simplesmente o destino que nos uniu desta forma. 

Retomando: sempre quis que a Matemática fizesse parte da minha vida e nada me iria preencher mais do que isto; isso sempre foi um facto para mim. No entanto, durante imensos anos, isto foi algo que tive de prender bem cá dentro e tentar esconder até de mim mesma (sem sucesso, claro está!). Isto porque queria não só a Matemática, mas também o ensino. Queria a junção perfeita das duas coisas. Queria passar o meu gosto pela Matemática, ensiná- la, interpretá-la de diferentes formas de maneira a mostrar que tudo é simples e belo a partir do momento em que conseguimos descodificá-la. Mas os meus pais não iam nessa cantiga... e juravam que nunca me deixariam ir para a universidade para tirar um curso e ir para o desemprego logo de seguida. É o que toda a gente pensa, certo? "Ensino? Estás louca! Vais estudar para o desemprego?" - já estou tão habituadinha a isto que até já tenho o discurso mais do que ensaiado! Sim, estou em Matemática e quero ser professora. Sim, está mau, mas há imensa procura para explicações, por exemplo. E sim, posso exercer outras funções apenas com a licenciatura - coisas ligadas a bancos, solicitadores, análise de dados de empresas... coisas giras! Aliás, a nossa diretora de curso recebe vários emails de empresas a pedir licenciados em Matemática... empresas como a Sonae, por exemplo. E, com esta licenciatura, posso tirar mestrados em Ensino, Economia, Gestão Bancária, Matemática (para investigação), Estatística... há imensas coisas que podemos fazer! 

Mas passando ao curso em si... não é fácil, posso começar por aí. Mas é facílimo entrar. Fácil ao ponto de a média rondar os 11 valores e as vagas nem serem preenchidas. Fácil ao ponto de um aluno que tira 9.5 no exame de Matemática A poder entrar. O problema é que Matemática é daqueles cursos fáceis de entrar, minimamente fácil de sair, mas difícil de sair bem. E com "sair bem" estou a falar em médias acima de 15 valores (não quero com isto dizer que médias inferiores são piores... mas quando apenas nos podemos agarrar a uma média para entrar no mundo do trabalho, temos de querer o máximo possível). Exige muito trabalho, esforço e paixão. Sem a paixão? A dificuldade aumenta ainda mais, podem acreditar! Arrisco- me a dizer, até, que a paixão é a chave do sucesso neste curso. Não basta terem tido boas notas durante o secundário... é um bom começo, claro, mas sem a paixão... não sei, porque não estou nessa situação, mas pelo que vejo, é complicado! 

Na Universidade do Minho, a minha universidade, têm a garantia (dada por mim... vale o que vale!) de que vão encontrar muitos professores que são ótimos! Professores que sabem o vosso nome (claro que, para isso, convém vocês se darem a conhecer), que mostram disponibilidade, que vos apoiam e, acima de tudo, vos ensinam! Tenho professores que me lixaram a média, isso tenho... mas grande parte deles foi apenas por exigirem a qualidade que eles próprios demonstram ter a dar aulas, e não apenas por pensarem "Ah, vamos lá aqui selecionar quem vou tramar hoje!". Posso dizer-vos que não escolhi esta universidade por nenhum motivo especifico a não ser ficar em casa dos meus pais. Havendo camionetas para a universidade a passar quase à porta de casa e fazendo o percurso casa-universidade-casa em duas horas, não havia necessidade de pagar alojamentos só para sair de casa dos meus pais. Seria desnecessário e egoísta - porque o dinheiro não estica. Além disso, ficar em casa dos meus pais permitiu-me começar a dar explicações na minha zona, o que é ótimo! Isto tudo para dizer que não me dei ao trabalho de comparar planos de estudo nem de pesquisar qual era a melhor universidade... embora tenha ouvido, mais tarde, que esta era a melhor universidade do paísdu no que respeita a este curso. Eu não duvido... se houver universidade melhor, então será uma universidade praticamente perfeita, porque esta já reúne todas as qualidades que acho necessárias! 

Não sei se já repararam, mas eu adoro o meu curso! Mas, como tudo na vida, ele tem um defeito: não tem qualquer tipo de estágio integrado. Isto é algo pelo qual andamos a lutar e sei que é um projeto que os próprios professores estão a tentar desenvolver... mas não é fácil, acreditem! Não sei se nas restantes universidades têm algum estágio no plano de estudos, mas julgo que não. 

Agora, especificando um bocadinho mais. Este é um curso dividido em 6 semestres, quatro deles com quatro cadeiras (a valer 7,5 ECTS cada uma) e os restantes dois com cinco cadeiras (duas com 7,5 ECTS e três com 5). O primeiro ano é ótimo para nos podermos ambientar! Não é muito pesado (digo isto porque, comparando com o choque do segundo ano, o primeiro é um ano santo!), embora tenhamos aquelas ilusões todas de começar uma nova etapa e conhecer gente e estar na praxe e, e, e... basicamente, é um ótima altura para começarem a definir prioridades! Eu fiz as minhas, que passavam pelo estudo/média, trabalho, família e amor... assim, excluí a praxe, porque não tinha tempo para isso - porque nesta universidade, podem contar com praxes de Setembro até Maio, quase todas as semanas e até mais do que um dia por semana! 

Continuando com as cadeiras... no primeiro ano temos Cálculo I e II - uma espécie de continuação da matéria do secundário -, Álgebra Linear I e II - algo que eu adorei aprender, porque são coisas completamente novas! É onde temos o primeiro contacto com matrizes e é fundamental apanhar bem essa matéria, porque precisamos disso para outras cadeiras -, Matemática Computacional I e II - aquela cadeira que pode ter tanto de giro como de chato... basicamente, é a "cadeira dos computadores", que é a coisinha que eu menos gosto, mas que eles insistem em pôr todos os semestres! - Tópicos de Matemática - na qual falamos de teoria de conjuntos, tabelas de verdade... coisas super giras de se aprender, a meu ver -, Geometria - que mais há a dizer sobre isto? - e Matemática Discreta - teoria de grafos e teoria de números... também é engraçada. Basicamente, aprendemos muita coisa nova e ainda temos um seguimento do secundário... e esse seguimento prolonga-se no segundo ano, com Análise I e II, terminando com Análise Complexa, no terceiro ano. Temos ainda Álgebra, Complementos de Álgebra, Análise Numérica I e II, Geometria Diferencial e História do Pensamento Matemático - isto no segundo ano -, Lógica e Fundamentos da Matemática, Métodos Matemáticos da Física, Probabilidades e Aplicações, Estatística, Temas da Matemática (que consiste na elaboração e apresentação de um trabalho orientado por um professor) e ainda duas cadeiras opcionais (têm quatro à escolha) e uma chamada "Opção UMinho", onde vos é dada uma lista de cadeiras para que escolham uma só e que é comum a muitos outros cursos - no terceiro ano! 

Tentei não especificar muito, para não chatear os menos interessados, mas posso perfeitamente dar mais detalhes a quem quiser, sem qualquer problema. Além disso, têm acesso a todo o plano de estudos no site da UM, aqui."

Minion math 😁

Kiara, Aluna do Segundo Ano da Licenciatura em Matemática na Universidade do Minho.

[Se tiverem dúvidas ou questões podem deixá-las na caixa de comentários. A Kiara irá responder às vossas perguntas no mesmo espaço assim que possível.]

5 comentários:

  1. Eu gosto de ler a Kiara a falar sobre o curso...Nota-se que escreve com uma paixão daquelas mesmo do tamanho do mundo! Uma opinião pessoal que justifica a maioria das pessoas não gostar de matemática é que há professores que não transmitem bem a matéria ou simplesmente dão aulas para os mais inteligentes, que apanham tudo logo e pronto...E como se sabe, Matemática sem bases é complicada de aprender, daí haver uma forte afluência aos explicadores particulares...A Matemática e a Física são imprescindíveis...

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  2. Gosto muito de ler o blog da Kiara, ela desde sempre que quis entrar no curso de Matemática e admiro-a por isso, sempre se esforçou e esforça-se, desejo-lhe o melhor :)

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  3. Estou em matemática aplicada e o curso é quase idêntico a este. A grande diferença entre matemática e a matemátaica aplicada é só mesmo as vertentes para o mestrado. Ah, e matemática aplicada tem mais programação e cadeiras muito mais práticas :)

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    1. Nunca soube as diferenças dos cursos, porque não me interessou xb Mas é sempre bom saber, por isso obrigada pela informação! :) Agora que sei as diferenças, agradeço mesmo por estar em Matemática pura... cadeiras de programação são um pesadelo para mim xb

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  4. mesmo já estando na universidade estou a adorar ler isto! :D

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