Thirteen

LUCKY 13 | Uma Questão de Privacidade

Recentemente fui contactada por um programa de televisão. Estavam a preparar um episódio sobre problemas de ansiedade e ataques de pânico, viram as minhas publicações sobre o assunto e convidaram-me para uma entrevista que poderia resultar numa ida ao estúdio para uma conversa em directo. Recusei. Vergonha? Medo? Insegurança? Não. Privacidade.

Comecei a escrever sobre problemas de ansiedade e ataques de pânico (AQUI) com o objectivo de ajudar as pessoas que lidam com as mesmas questões mas nunca, em momento algum, me expus demasiado ou contei mais do que aquilo que seria aceitável aos meus olhos se estivesse do outro lado. Estes são temas que devem ser abordados, debatidos, falados e transformados em algo natural - porque existem aos montes e não vão desaparecer apenas porque decidimos ignorá-los - mas também são temas pessoais que, na minha óptica, não devem ser expostos sem ponderação. Não condeno quem aceita tais convites nem aponto o dedo a quem dá o seu testemunho num canal de televisão nacional mas, no meu caso e segundo as minhas regras pessoais, é algo que não faz sentido.

Aceitar o convite implicaria contrariar aquilo que defendo. Implicaria ignorar a tal distinção entre pessoal e íntimo que tantas vezes refiro e, optando pela vertente anónima da reportagem, implicaria deixar de dar a cara pelas minhas opiniões e palavras. Estaria a quebrar as minhas próprias regras e os meus próprios valores. Preferi recusar.

Eu tomei a decisão de escrever sobre o assunto no blogue por achar que podia mudar alguma coisa no mundo (ingénua - já sei) mas também fiquei de pé atrás antes de carregar no botãozinho cor de laranja porque não me esqueci que esta é uma página que QUALQUER pessoa pode ler. Reli os textos as vezes que foram precisas e editei-os até restarem apenas três coisas: 1) a confirmação de que também eu lido com a ansiedade e o pânico, 2) as ferramentas ou palavras que sei que ajudam quem vive com o mesmo problema e 3) um olhar crítico - racional, até - perante a situação.

É assim que eu tento ajudar: não falo dos meus episódios mais negativos nem abordo situações concretas mas esclareço as dúvidas que me colocam, aconselho da melhor forma que consigo quando me contactam, partilho dicas (como ESTAS, ESTAS e ESTAS), tento mostrar que há mais gente no mundo com a mesma dificuldade, que é possível melhorar, lidar com isso, viver com tal característica sem medicamentos, químicos, tratamentos de choque. Eu ajudo como posso sem comprometer a minha personalidade ou os meus valores. E é assim que pretendo continuar.


Não vou mencionar o nome do canal nem o nome do programa porque não sei até que ponto estou autorizada a fazê-lo. Espero que compreendam.

11 comentários:

  1. Acho que fizeste bem em recusar, eu faria o mesmo, não troco a minha privacidade por nada deste mundo.

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  2. Compreendo perfeitamente a decisão. Penso que tomaria exatamente a mesma decisão após a devida ponderação e a procura da opinião de outras pessoas próximas de mim e que conhecem a situação, o qual tenho a certeza que fizeste. Já ajudas muito pelo facto de fazeres o tipo de posts que fazes. Acredita, têm-me ajudado imenso. Quando li o primeiro texto que escreveste sobre a ansiedade chorei, confesso. Conseguiste escrever aquilo pelo qual eu passara nas mais diversas situações e graças ao qual tinha passado por uma situação bem mais grave e complicada. Tomei decisões importantes nesse dia, nomeadamente o facto de procurar ajuda médica, que os meus pais já me tinham sugerido, o que irá acontecer daqui a pouco tempo espero. Não sei se será um caso grave, ou se será mesmo ansiedade o diagnóstico, mas que tive ataques de pânico e tenho exatamente os mesmos sintomasque descreveste tenho. Ajudas-te-me imenso, abriste-me os olhos ao chamar-me a atenção para esta doença e para a possibilidade de vir a ser minha, mas também me mostraste que podemos arranjar sempre forma de a contornar-mos e agradeço-te imenso por isso. Talvez eu tenha caído no erro de tornar este comentário demasiado pessoal, mas eu precisava de to dizer, até porque tenho a certeza que não o fizeste só por mim. Obrigada por tudo isto Carolina! Beijinhos!
    Blog: As Confissões da Andreia

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    1. Não fazia ideia que a minha publicação tinha tido um impacto tão positivo na vida de alguém. Sabia que muita gente se tinha identificado com o texto mas nunca pensei que pudesse levar alguém a procurar ajuda e a ter vontade de melhorar. Obrigada por teres partilhado isso comigo.
      Espero que, a partir de agora, consigas controlar melhor esse teu problema. É algo muito mais comum do que aquilo que as pessoas pensam e é possível lidar com ele. Boa sorte e as melhoras, Andreia :)

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  3. Acho que fizeste bem. Os 5 min de fama muito provavelmente trariam-te mais ansiadade...

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  4. fizes-te o que achas-te melhor seguindo os teus princípios. primeiro bem connosco e depois com os outros :)

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  5. Uma colega minha também já recebeu um convite para um programa de televisão na sequência de um post no facebook. Pelos vistos (pelo menos não fazia ideia) isso é mais comum do que imaginava.. Tal como tu, ela não aceitou e eu também não aceitaria.

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  6. Também fui contactada pelo mesmo programa de televisão porque leram um comentário meu a essa tua publicação. Ainda não respondi ao email. mas vou recusar exactamente pela mesma razão. A ideia de me expor em tv vai contra tudo aquilo em que acredito e com o qual me sinto confortável

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  7. São decisões e se aceitar iria contra aquilo que defendes então sim, fizeste bem em recusar :)

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  8. Eles também me contactaram e foi por ter comentado a tua publicação. Só tive acesso à internet agora e vou igualmente recusar pelas mesmas razões que tu.

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  9. Mal recebi a mensagem no facebook pensei logo em ti xD Quando falei contigo foi exactamente por esse mesmo motivo. Porque apesar de ter a minha ideia formulada sobre o que ia fazer: de que não era para uma coisa para mim, queria saber o que tu pensavas... especialmente tu que tens sido o motor desta tema. E agradeço-te por isso. Porque tu, eu, a Anaa, a Mariana... somos gotas isoladas no oceano mas se formos falando mesmo que guardando para nós todas as situações concretas vamos, aos poucos, formando um mar. E isso sim! Faz a diferença. Gosto muito do meu cantinho. E gosto de me resguardar ao máximo. Não acho que contar o meu caso a programa de televisão fará mais diferença do que a que já estamos a fazer. No responder a quem como nós tem este problema e assumindo-o. Porque fragilidades todos temos, importa é saber lidar com elas. E nisso tens feito um trabalho incrível!

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  10. Primeiro, parabéns pela oportunidade! Mesmo sendo algo que não queiras fazer, é excelente que os teus textos e as tuas dicas tenham este tipo de atenção. (:

    Compreendo perfeitamente os teus motivos para rejeitar. Embora ache que de alguma maneira seria muito bom para os portugueses ouvirem as experiências de alguém que sabe do que fala do ponto de vista pessoal - embora o ponto de vista profissional seja muito importante, o ponto de vista pessoal é geralmente ignorado, e não deveria ser -, é algo extremamente complicado que exigiria muita preparação para não dizeres algo mais íntimo, como dizes, por nervosismo ou mesmo por causa da ansiedade. Posto isto, continua!

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