TEMPO DE ANTENA | Ensino Superior: Medicina

"Desde pequenina que quero ser médica - em parte influenciada pelo meu irmão, uma vez que, quando nasci, já ele frequentava o primeiro ano do curso que lhe daria acesso a esta profissão. No entanto, sempre pensei no assunto de forma consciente e nunca quis ir para Medicina só por ter um familiar na área ou por até tirar notas boas. E isso fez com que, no secundário, me questionasse: era mesmo aquilo que queria?

A resposta chegou com os resultados do 11º ano: foi quando vi a minha média de dois anos baixar imenso por causa de dois exames que percebi que Medicina era realmente o meu sonho desde pequenina, e que me estava a escapar. Parece irónico, mas foi quando as incertezas em relação à minha entrada neste curso surgiram que ganhei certezas do que queria no futuro. E a partir daí foi mais fácil.

No 12º ano, na primeira fase, não só fiz os exames de Português e Matemática A como repeti os do ano anterior. Desta vez, o trabalho foi recompensado e a maior experiência e maturidade favoreceram-me: consegui resultados que me garantiram uma média de acesso ao ensino superior bastante confortável. Só faltava escolher.

Não hesitei em gastar as seis opções com cursos de Medicina (e preenchi mesmo as seis porque, apesar de estar confiante, nunca se sabe…). Felizmente, e apesar de o caminho ter sido tortuoso, entrei na minha primeira opção, a FMUP (que é, atualmente, a minha segunda casa). Coloquei esta faculdade no topo das minhas escolhas pelo prestígio, pelas oportunidades que oferece, pelo método de ensino, pelos testemunhos de outras pessoas, pela localização (não fosse o Porto a minha cidade do coração!) e pela relativa proximidade a casa. E mesmo hoje, apesar de tudo, não me arrependo.

Ainda não sei o que o futuro me reserva, não sei que especialidade seguirei (e, com todas as mudanças que estão a haver, ainda nem sei como será a minha prova de seriação para escolha de especialidade – porque o famoso Harrison será, muito provavelmente, aniquilado até que chegue a minha altura – nem se terei o Ano Comum – já que estão a pensar extingui-lo, se o 6º ano for profissionalizante quanto baste). No entanto, sei que, de cada vez que chegar ao meu local de trabalho (seja no bloco, no centro de saúde, no serviço de urgência ou noutro lugar qualquer), não saberei o que me espera. E esta é uma das coisas que mais me fascina, tanto na profissão que irei ter como no meu curso: a falta de monotonia. De facto, apesar de os 3 primeiros anos de curso serem mais teóricos (e de nos restantes 3 passarmos pelas diferentes especialidades e termos uma maior noção da prática clínica), a verdade é que nunca o são verdadeiramente, incluindo, até, bastante prática. Até agora, já usei n vezes o microscópio em Histologia, fiz casos clínicos e simulações em Fisiologia, virei ratinho do laboratório nas cadeiras da área da Biologia e Bioquímica, debati-me com o SPSS em Bioestatística, rezei para que os cálculos dessem certo em Epidemiologia e estudei com recurso a cadáveres em Anatomia (sendo esta uma grande mais-valia da FMUP, pois nem todas as faculdades de Medicina do país oferecem esta oportunidade).

No entanto, nem tudo é bom! Sempre me disseram que o difícil era entrar, mas eu cá acho que é difícil mantermo-nos no curso. A pressão é enorme (especialmente na época de exames), há cadeiras e cadeirões (e CADEIRÕES!), muitas horas de sono ficam perdidas, os dezoitos, dezanoves e vintes deixam de ser uma constante e, de repente, há onzes que parecem vintes e por vezes um dez já é bom… Para além disso, não demorou muito até perceber que aquela que é por muitos apelidada de «melhor faculdade do país» também tem as suas falhas, e o meu ano foi cobaia de uma reforma curricular que causou (e continua a causar) os seus problemas... Porém, as adversidades existem em todo o lado e não há nada como limpar as pedras dos sapatos e continuar a caminhar. Quando se gosta, tudo se faz.

Aos aspirantes a médicos (e aos caloiros em geral, que muito do que vou dizer a seguir também se aplica), muita calma. Lutem pelos vossos sonhos e, se o plano A não funcionar, lembrem-se que há mais letras no alfabeto. Não deixem que uma falha vos defina. Tentem distribuir bem o tempo e ocupar parte dele com pessoas e coisas de que gostem, sempre (vão precisar, para bem da vossa sanidade mental!). Estudem muito mas, acima de tudo, estudem bem. Experimentem a praxe (não há nada como tentar e eu até gostei da praxe da minha instituição). Desfrutem destes anos, que dizem ser os melhores das nossas vidas - a minha curta experiência ainda não mo permite confirmar (ainda assim, já posso afirmar, com toda a certeza, que podem ser muito bons...). E, para finalizar, nunca se esqueçam da máxima de Abel Salazar: "O Médico que só sabe Medicina, nem Medicina sabe.".

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Ju., Aluna do Segundo Ano do Mestrado Integrado em Medicina na Universidade do Porto.

[Se tiverem dúvidas ou questões podem deixá-las na caixa de comentários. A Ju. irá responder às vossas perguntas no mesmo espaço assim que possível.] 

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6 comentários:

  1. Gostei, um curso que sempre admirei muito :)

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  2. Concordo contigo, que devemos esforçar-nos e estudar bem mais do que estudar muito, mas continuar a manter a sanidade mental!
    Vais ver que consegues realizar tudo aquilo que queres (:

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  3. Um dos cursos mais bonitos sem dúvida! :)

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  4. Adorei este texto porque o meu curso tem muitas parecenças com este e revi-me nalgumas coisas :)

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  5. Olá Ju! Eu ainda estou no Secundário. Entrei agora para o 12º ano. Não tenciono concorrer a medicina, apesar de que quando leio textos de estudantes de medicina aqui no blog, por exemplo, gostar muito e sentir que de facto é uma área que nos faz sentir recompensados por ajudar-mos os outros. No entanto tenho uma questão para ti. Os resultados dos exames do 11º ano não foram de todo do meu agrado e também me desceram bastante a média. Estou decidida desde o dia em que saí daquela sala que iria fazer melhoria aos dois (apesar da grande maioria das pessoas achar que estou doida...), mas na verdade tenho certas dúvidas... Como é que te foste preparando ao longo do ano? Assististe a aulas do 10º ou do 11º ano a essas disciplinas? O que é que tiveste que fazer para puderes fazer melhoria e todo o processo em geral? Gostava que me pudesses esclarecer sobre tudo o que puderes por favor. Obrigada :)

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    1. Olá Andreia!
      Eu, pessoalmente, não achei necessário assistir às aulas do 10º e 11º anos das disciplinas em questão e nem sequer me dediquei muito a Física e Química A e Biologia e Geologia ao longo do 12º ano - talvez tenha lido uma ou outra coisa ocasionalmente e resolvido alguns exercícios, mas nada de especial... A minha estratégia passou antes por me focar em Português e Matemática A, estudando de forma a que a minha vida ficasse facilitada na época de exames.
      A cerca de um mês dos exames comecei o estudo "a sério" e lembro-me de me ter dedicado bastante a Biologia e Geologia, porque a Física e Química ainda tinha alguns conceitos presentes (graças a Deus que nunca estudei para decorar e sempre consolidei bem a matéria, no secundário). Para Física e Química recordo-me de só ter estudado dois dias na altura dos exames, aliás - o facto de ter tido Química no 12º ano também ajudou bastante a reavivar alguns conceitos. Quanto a Matemática, tinha dado o litro ao longo do ano. Relativamente a Português, bem, todos sabemos que para Português interessa saber escrever e saber interpretar, e não é preciso estudar por aí além (se bem que é necessário rever a gramática e analisar bem as obras que são alvo de avaliação!).
      Decidi ter 4 exames em pouco mais de uma semana e ainda hoje acho que fui um pouco louca quando tomei essa decisão... Felizmente, correu bem, em parte porque fui capaz de manter a calma nesse período crítico. Apesar de ter estudado pouco, estudei bem, e isso foi determinante. Para além disso, repeti os exames com uma maior maturidade e experiência, e com outra bagagem, o que também ajudou. Um conselho: faz todos os exames e todos os testes intermédios das disciplinas a que vais a exame e estuda bem o tipo de questões. Foi algo que eu fiz no 12º ano e que também contribuiu para a grande melhoria da minha média. Especialmente a Biologia e Geologia e Física e Química, há certos temas que são questionados em TODOS os testes do GAVE (ou IAVE agora, não é?) e há que apostar especialmente nesses! São certinhos, não há como falhar!
      Tudo de bom e a maior sorte do mundo. Se continuares com dúvidas, estarei cá para as esclarecer.
      Beijinho*

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