ATUALIDADE | Como se ajuda alguém que não quer ser ajudado?

Em Portugal há muita gente que vive em condições deploráveis, que recebe uma miséria, que luta diariamente pela sua sobrevivência. Verdade. Há famílias que sobrevivem em bairros de lata, mães que têm dois, três, quatro empregos e que mesmo assim não são capazes de sustentar os filhos, casas sem condições, pessoas que vivem pior do que aquilo que conseguimos sequer imaginar. E estes casos multiplicam-se de dia para dia.

Mas será que dormir ao relento é sempre uma obrigação? Acredito que o seja em muitas cidades e casos porque as instituições não conseguem chegar a todo o lado nem tão pouco conseguem acolher toda a gente. No entanto, por outro lado, em muitos locais existem sem-abrigo que dormem ao relento porque querem. Não porque querem realmente, como é óbvio, mas porque não aceitam acolhimento e ajuda. Porque são orgulhosos. Porque estão zangados com o mundo. Porque foram mudados pelo desespero. Porque preferem a liberdade de não ter horários e ordens, muitas vezes.

Braga é um bom exemplo disso. Passeando pelo centro da cidade durante a noite não vemos muitas pessoas a dormir ao relento. Contamo-las pelos dedos porque, apesar de ser uma cidade que não pode ser comparada a Lisboa ou Porto, existem instituições que as acolhem durante a noite. Regra geral - porque existem sempre excepções, obviamente - os sem-abrigo que dormem na rua não querem ser ajudados e nada fazem para ter um tecto. Há horas para entrar e sair da residência social, há regras para cumprir e muitas dessas pessoas não estão para isso. Aceitam as roupas mais quentinhas que os voluntários distribuem e reclamam porque vivem miseravelmente mas não utilizam esses espaços - que lhes dão um tecto, uma refeição quente, uma muda de roupa e um local para tomar banho - como ponto de partida. Eu própria já testemunhei situações menos simpáticas onde os voluntários distribuíam roupas mais quentes e acabavam por ser maltratados quando sugeriam as instituições.

Como se ajuda, então, alguém que não quer ser ajudado? Como se dá abrigo a alguém que, apesar de dormir num banco de jardim ou debaixo das arcadas dos claustros, não aceita o convite dos voluntários que tentam, durante as noites frias, recolher aqueles que não têm família nem para onde ir? Acredito que, em muitos casos, dormir ao relento seja realmente uma obrigação. Noutros, será uma opção?

Society's ugly , no doubt about that !

5 comentários:

  1. Passear pelas ruas do Porto, principalmente à noite, parte-me o coração. Infelizmente os sem abrigo não se contam pelos dedos, e são muitos. Já distribuí, algumas vezes, roupas e já fui maltratada por isso. Mesmo no desespero, há de tudo. Acredito que, mesmo dentro dessas situações, possa não ser o "não quererem ser ajudados" sempre. Acredito que seja orgulho ferido, a tristeza de sentirem que falharam. Não deve ser fácil viver na rua. Não deve ser fácil necessitar sempre de ajuda para sobreviver mais um dia. Mas compreendo perfeitamente o teu ponto de vista até porque eu também me pergunto mesmo. Porque apesar de estar aqui a "desculpar" sei que há alguns que realmente não querem ser ajudados. Pessoas revoltadas com a vida e com o governo. É tão triste.

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  2. Uma vez conheci um sem abrigo, em Lisboa, que viva na rua porque não queria compactuar com o sistema. Foi a justificação que ele deu. Ainda hoje não sei que conclusões tirar sobre isso. O sistema não mudou só porque ele decidiu ser sem abrigo, será que vale a pena viver nas ruas e ser infeliz, do que ter uma casa e uma família, mesmo não concordando com o sistema? Por um lado percebo-os mas por outro...

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  3. Em Toronto fiquei completamente chocada com a quantidade de pessoas a dormirem na rua... E o problema é que lá eles não têm opção: ou aceitam dormir em associações que o Governo providencia, ou então morrem de frio no Inverno.

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    1. Mas se o Governo providencia espaços para os acolher, porque não os aceitam? Num país mais drástico nesse aspecto (pelas temperaturas, essencialmente) não faria mais sentido aceitar ajuda? Não estou a par das políticas canadianas mas não me parecem perguntas assim tão descabidas quanto isso... :/

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