ATUALIDADE | "Por favor, não fiques doente durante o fim-de-semana."

Vamos lá ver se nos entendemos: a) um médico não tem que trabalhar fora do seu horário de trabalho, b) um médico não tem de estar sempre disponível e c) um médico - como qualquer outro profissional - não tem de trabalhar sem remuneração. Todos os profissionais de saúde têm horários e escalas de urgência e todo e qualquer trabalho que vá para além disso deve e tem de ser pago.

Todos os médicos que passam por nós num hospital ou num centro de saúde têm coisas em comum. Todos têm horários e turnos de urgência, todos deram o litro para entrar na Faculdade, todos estudaram o triplo disso durante seis anos para conseguirem sair de lá, todos foram internos, todos fizeram a especialização e, o mais importante, todos merecem respeito - como qualquer outro ser humano.

Digo muitas vezes que não seria capaz de enveredar pelo caminho da Medicina e sei que, em parte, isso provém da minha sensibilidade perante determinados casos que mexem comigo duma forma que não me permitiria ser suficientemente fria. O caso do David é um deles. O meu namorado fez 28 anos ontem, tem uma vida pela frente e, apesar de não o ter confessado a ninguém, não pude deixar de pensar nele quando li a notícia do falecimento do David, que, com 29 anos, teve o azar de se ter sentido mal durante um fim-de-semana. Foi inevitável e absolutamente arrepiante em simultâneo. Sejamos sinceros, num país pequenino e supostamente completo e civilizado, quantos de nós não pensaram "e se fosse comigo ou com a minha família?" quando tiveram conhecimento da história? O caso do David foi trágico. E o que me incomoda é que não foi um caso isolado.

Mas será que faz sentido culpar os médicos pelo fim abominável da situação? Não. De todo. Volto a referir: nenhum médico tem de estar disponível para emergências num hospital todos os dias, 24h por dia. A culpa está na organização dos turnos, na péssima gestão de especialidades. Quem define as escalas tem de assegurar que existem profissionais à distância de uma chamada - pelo menos! - a todas as horas. E se um hospital diz que pode receber um doente urgente, então é bom que tenha as condições adequadas para o tratar. Só isso. A culpa está no sistema e nas pessoas que o criam e modificam, não está no médico que também tem o direito de passar o serão em família.


Que o caso mediático e polémico do David seja o gatilho para a mudança. Que sirva para evitar tragédias do mesmo tipo.

14 comentários:

  1. Fiquei a arrepiada com a história e disseste mesmo aquilo que penso. Que isto não continue assim.

    ResponderEliminar
  2. Às vezes penso eu dar a minha opinião sobre estes assuntos. Aliás, tenho sempre um olhar atento sobre o máximo das coisas, nomeadamente das que se passam em Portugal. Obrigo-me a fazer exercícios de opinião e, neste caso, a primeira ideia a reter foi essa: um médico é um funcionário público como qualquer outro. Deve ser pago pelo seu trabalho, deve estar presente nas horas devidas e por aí fica o seu dever. O que aconteceu no caso do David, apesar de direcionar, a princípio a culpa para os médicos, parece-me que não tenha sido uma primeira avaliação justa. Depois, passou-se a batata quente para o estado, que em parte tem sempre as costas largas (e tem mesmo) em muitos destes cenários. A verdade é que, como dizes, o médico deveria ter estado à simples distância de um telefonema do hospital. Porque é que não aconteceu? São perguntas que ficam por responder.


    E, como disse no início, gosto de falar sim sobre estes assuntos e gosto que o faças aqui também, Carolina. A meu ver, tocaste nos pontos certos, da forma certa e é preciso uma imparcialidade e uma boa visão de espectador para formular esta posição. :)

    ResponderEliminar
  3. Este tema toca-me particularmente e não podia concordar mais contigo. Obrigada por colocares em palavras aquilo que eu penso de uma forma que só tu sabes! (:
    Beijinho*

    ResponderEliminar
  4. Tens tanta razão. As vezes que já discuti isto e disse o mesmo que tu...pior, mesmo que os médicos (que nem sequer foram chamados neste caso) quisessem ajudar, não podiam porque não estavam escalados para isso, segundo um amigo meu que é agora interno. Mas é sempre mais fácil culpar os médicos do que os big bosses que fazem cortes às cegas.

    Jiji

    ResponderEliminar
  5. Não acho que estejam a atribuir a culpa aos médicos, aliás, não foi propriamente erro médico, foi erro de gestão de pessoal médico, são coisas diferentes.

    ResponderEliminar
  6. Concordo. O problema foi de gestão.
    E enquanto futura profissional de saúde acho que muitos problemas seriam resolvidos se tudo fosse organizado de melhor forma. É sobretudo uma questão de falta de recursos... humanos.

    ResponderEliminar
  7. Acho que tens razão, mas no fundo existem sempre coisas escondidas que nós desconhecemos, sei que foi mal gerido, mas às vezes nunca se sabe o que realmente aconteceu.. Mas na mesma não os culpo!

    ResponderEliminar
  8. Olá Carolina! Não posso deixar de concordar e discordar contigo... Não me vou referir a este caso em particular - pq nem estou informada o suficiente para comentar - mas sim ao geral. Sou estudante de um curso de saúde e logo no meu primeiro ano tive uma cadeira de introdução ao meu curso, onde me foi apresentado o código por onde os TDT, mais especificamente, se tem de reger. E um dos deveres que me chamou muito a atenção foi o facto de termos de estar contactáveis 24 horas por dias, todos os dias do ano. Incluindo informar onde nos poderão encontrar e como nos contactar durante as nossas férias, caso hajam emergências. Como disseste tu muito bem e a Inês, ''o médico deveria ter estado à simples distância de um telefonema do hospital. Porque é que não aconteceu?''. Porque é que, mais vezes do que aquelas que são admitidas,não há médicos num hospital? Porque é que não estão contactáveis? Ou porque é que não há ninguém que esteja disponível para substituir aqueles que não podem ir? Será culpa dos médicos ou daqueles que gerem as escalas ou do sistema?
    E agora vou tocar num ponto que acredito que seja muito sensível... Aos olhos do povo, há profissões e profissões! Há profissionais que começam logo a receber um bom ordenado e há aqueles que ganham pouco mais que o ordenado mínimo. Com o dinheiro, vêm muitas obrigações também! Com todo o respeito, vou dar um exemplo muito prático. Tu estás a tirar Turismo. Quando começares a formar a tua vida, tenho a certeza que vais dar o máximo em todos os campos para seres bem sucedida. Mas num dia de natal queres estar com a tua família e o trabalho, tal como a maioria das pessoas fazem, é deixado de lado. Com quase toda a certeza, penso que se não atenderes uma chamada do trabalho, ninguém vai perder a vida. O mesmo não acontece no caso de um médico. Profissões diferentes, exigem obrigações diferentes. Todos nós temos noção disso.
    Espero, tal como tu, que este caso leve à mudança, pese na consciência de todos aqueles que deviam estar no hospital e não estavam, de todos aqueles que fazem as coisas ao desenrasca e que todos percebamos que temos de ser responsáveis por aquilo que nos compete, porque nem sempre as coisas correm bem.
    Beijinho*

    ResponderEliminar
  9. É como tudo o resto...falam e falam do mesmo mas depois esquece-se e fica tudo como está. É o habitual no nosso país:/ A questão é quantos mais David's morreram ou irão morrer por causa do mesmo problema.

    ResponderEliminar
  10. Concordo com o que dizes, e acho até que, no meio de tanta gratidão que os médicos recebem ao salvar vidas, é uma profissão ingrata pois, são eles que dão a cara pelo mau funcionamento do sistema em que estão inseridos, e também, quando algo de mal acontece, mesmo quando fizeram os possíveis e os impossíveis, são os primeiros a levar com o desespero e a tristeza incondicional das pessoas como se fossem os principais culpados.

    A verdade, tal como dizes, é que o erro está no sistema, nos turnos mal geridos, nas especialidades que são nulas em alguns hospitais ao fim de semana. Até tem vindo a ser noticiado, a quantidade de salários que os médicos recebem por fazerem vários turnos seguidos, as pessoas ficam escandalizadas 'como é que um médico trabalha tanto?' eu fico é escandalizada como é que um médico se permite a trabalhar tanto, sei que os tempos estão difíceis, mas o cansaço também se acusa nos médicos e depois podem ocorrer fatalidades simplesmente pelo cansaço, e não por serem maus médicos.
    S
    implesmente (parece pouco ao usar este termo numa coisa tão enorme de importância para a nossa sociedade) o sistema tem que mudar.

    ResponderEliminar
  11. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderEliminar
  12. Na minha opinião a culpa foi nitidamente da Gestão do Hospital. Para mim as coisas são assim, demasiado simples. Havia outros 5 na mesma área dispostos a receber o David, contudo não foram informados do caso. O que resultou na morte deste jovem.

    Achei uma falta de profissionalismo por parte da equipa médica que socorreu o David, mais do que a falta de médicos em si. Já que havia outras opções.

    Mas claro, o problema principal reside na má gestão hospitalar.

    ResponderEliminar
  13. A culpa é de quem gere os hospitais e faz as escalas... Deveria haver pelo menos um médico de cada especialidade no serviço para qualquer eventualidade! E assusta-me que isto tenha acontecido várias vezes.

    ResponderEliminar
  14. É certo e sabido que os profissionais de saúde, principalmente os técnicos e enfermeiros em início de carreira, não ganham salários exorbitantes e que compensem as inúmeras e desgastantes horas de trabalho, daí optarem por ficar no conforto de sua casa, usufruindo do direito à greve. Mas também é preciso referir que os serviços mínimos num centro hospitalar têm de estar obrigatoriamente assegurados e um médico sozinho nada faz, é preciso toda uma equipa por trás do médico para zelar pelo bem-estar e pela recuperação do paciente. Contundo, ainda acho que esta história está muito mal contada, e pelo que sei, a equipa médica do David não fez o possível por ele. Não deu o litro por ele. Nem se deu ao trabalho de o transferir para um centro hospitalar onde ele tivesse a oportunidade de viver e isso dói. A culpa é de todos os envolvidos que "fecharam os olhos" ao David...

    ResponderEliminar