TEMPO DE ANTENA | A Arte de Acumular

"O que mais me assusta nas decisões não é o facto de, de entre tantas portas, escolher apenas uma e seguir em frente, porque posso retroceder. O que é verdadeiramente terrífico é aperceber-me de que, à medida que tomo as minhas opções, há portas que se fecham irreversivelmente. 

É-me relativamente simples pensar em tudo aquilo de que gosto e pretendo manter comigo. Por outro lado, acho imensamente complicado afirmar com toda a certeza que abomino uma certa coisa e que a quero eliminar por completo da minha vida. Não sei se acontece apenas comigo, mas penso que descartar algo é uma ação muito mais definitiva. Porque eu posso ter X e rejeitá-lo a qualquer momento... Porém, depois de me livrar dele, nem sempre o posso repescar.

Talvez por isso as roupas que já não me servem (não aquelas que me ficaram pequenas, mas as que deixaram de se encaixar nos meus gostos) se vão acumulando. Provavelmente é por essa razão que vou guardando objetos que outrora me foram úteis, ainda que, atualmente, de pouco me sirvam. Se calhar esta é a justificação para a minha enorme dificuldade em apagar documentos e fotografias no geral, por muito pouco importantes que sejam. Quem me garante que não vou acordar um dia e olhar de forma diferente para aquela camisola que está no fundo do armário e que tenho vindo a ignorar? Ou que não conseguirei encontrar uma nova utilidade nos utensílios que tanto tempo se resguardaram na gaveta? Ou que não gostarei de abrir aleatoriamente alguns dos muitos ficheiros que tenho guardados e revê-los? 

A verdade é esta: até me posso lembrar de recuperar isto ou aquilo, mas é óbvio que muitas coisas não voltam a ver a luz do dia, para ser sincera. Quanta coisa desnecessária vou juntando, pergunto-me? Ainda assim, esta nem é a questão mais problemática para quem, como eu, tem dificuldade em se desfazer do que quer que seja. Ir acumulando peças de vestuário, objetos ou documentos não causa propriamente mossa - para além de ocupar espaço. O que nos mói são as relações tóxicas que não queremos abandonar, as pessoas que nos magoam e que insistimos em manter por perto e os pensamentos que só nos fazem mal mas que permanecem na nossa cabeça... Quantas coisas prejudiciais mantemos na esperança de que um dia nos deixem de lesar?"


Ju, Naïve.

6 comentários:

  1. E por vezes é tão bom revermos o que fomos no passado e aquilo que gostamos :)

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  2. Identifico-me imenso com este texto porque, tal como a Ju, guardo tudo e tenho imensa pena de deitar fora. Mesmo aquelas pequenas coisas das relações mais tóxicas que tive...

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  3. Adorei o texto!
    beijinhos,
    http://semmediidas.blogspot.pt/

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