Thirteen

TEMPO DE ANTENA | Valorizar os Maus Momentos

"Se custa? Claro que custa. A quantos de nós é que nunca aconteceu meditar acerca de uma questão sem resposta? Quem é que nunca saboreou os aromas e consistências peculiares da zona mais macabra do nosso pensamento? Quem somos, o que temos, porque o somos... O rancor, a agonia, o receio... A vontade que nos arrepia a alma e que nos rasga o coração de fazer algo contra os nossos demónios, as sombras que nos obstruem a visão. De nada vale se tentarmos afirmar a felicidade eterna ou fácil. Nada que exija trabalho e dedicação é fácil. Aqui e ali podemos dar uns quantos desvios, mas é inevitável. Ninguém é feliz a cem porcento. Há sempre algo que ou está em falta ou está a mais... E muitas das vezes, o que está de menos é demais.

Não foi a primeira vez que a mesma pessoa me chamou à atenção para este meu suposto "defeito". E duvido muito que eu seja a única pessoa no mundo a ter de enfrentar tal situação. Não sou uma pessoa fácil. Hoje estou aqui toda alegre porém, amanhã a coisa muda de figura. E as razões muitas das vezes nem deveriam ser uma justificação. Sabem porquê? Porque me deixo afetar, e em demasia, pelos assuntos do passado. Até hoje, o meu cérebro ainda não conseguiu ver-se livre de tais resíduos que pura e simplesmente insistem acompanhar-me... Ou então sou eu que não me quero livrar destes pensamentos. Talvez parte de mim se sinta aconchegado por acarinhar as más memórias que, querendo eu ou não, acabam por se revelar úteis. Para que eu mantenha anexado que não são apenas de memórias felizes que se fazem as pessoas boas. Por vezes, as pessoas mais amigas, carinhosas e que têm sempre um conselho à mão são as que tiveram de enfrentar muros e muros de dificuldades emocionais... As que vivenciaram o que é comer o pão que o diabo amassou pois não dispunham de outra alternativa... As mesmas que, tal como eu, batalham a cada dia que passa com mais furor pela pequena felicidade a que podemos e devemos ter direito.

"Mas isso é tão deprimente de se dizer. Tenta pensar em coisas mais felizes" - o que muitos insistem em repetir vezes e vezes sem conta, por estas ou outras sentenças. E uma vez mais repito: nada que exija trabalho e dedicação é fácil. Se não tivéssemos de esfolar as mãos, a vista e o coração na montanha que a vida ostenta ser, nenhum de nós encarregar-se-ia de dar valor às pequenas coisas, aos breves momentos com alguém especial, às curtas vitórias que são capazes de se prolongarem por tempos e tempos. As poucas pessoas que demonstram este apreço pela vida não teriam hipóteses de comparação entre algo que os consola e aquilo que os enfraquece. Seria completamente impossível, acreditem no que vos digo. E é essa mesma impossibilidade que dá um certo gosto à vida... Às vezes, menosprezamos tanto os maus momentos, que acabamos por nos esquecer das coisas boas que tentamos fazer e as lições que começam a fazer parte do nosso dia-a-dia. Que mal tem chorar no ombro do amigo que é capaz de nos consolar? Que tipo de ser humano serás tu se desabafares os pedregulhos que te obrigam a arrastar os pés devido ao peso que exercem no teu coração? Que perigo se mostra alerta sempre que necessitas fitar aquele sorriso que te ilumina? Seja lá que tipo de respostas que tenhas para estas perguntas, a verdade é que num momento ou noutro, todos nós pensamos nestas coisas. Nas coisas boas, nas coisas más, nos rancores, nas lições que devemos apontar para não esquecer, nos sorrisos que queremos dar... Mas acima de tudo, aquilo que devemos interiorizar é que se algo que tenhamos de realizar e que nos proporcionará um grão de felicidade tiver de ser feito e custar, é porque no futuro valerá a pena..."


Carolayne, A Vida de Lyne.

8 comentários:

  1. Excelente texto...curioso que ontem e hoje apanhei-me a reflectir sobre isto, deu-me para escrever. E é mesmo isso. Os maus momentos, o medo, tudo faz parte - se assim não fosse, nunca saberíamos o que é bom na vida. Mas também gosto de olhar com um pouco de "boas energias" e pensar que serei mais feliz se me focar no que a vida tem de bom!

    Jiji

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  2. Adorei, os maus momentos servem para aprendermos com eles ....

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  3. Gostei tanto deste texto tão cru da Carolayne, está fantástico. É uma grande verdade, sem dúvida, se não experimentamos o amargo não valorizamos o que é doce (quer dizer... podemos valorizar sempre, mas acabamos por valorizar ainda mais!). Ainda assim tento manter-me positiva apesar de ter consciência de que sou ansiosa. Tento sempre ver as coisas num panorama positivo, de que as coisas no final podem correr bem. E as que não correram serão um grande passo na minha aprendizagem, o que nunca será (de todo) mau. Às vezes não é fugir ou "desviar" dos momentos difíceis, tristes ou das lembranças amargas. É saber rodar um pouco o prisma em frente à janela para o espectro de cor, finalmente, aparecer :)

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  4. Está muito bem escrito e é a mais pura das verdades. Os maus momentos fazem parte e há que tentar tirar o melhor partido deles. Porque o há. Os maus momentos dão-nos força, calo, e ajudam-nos a valorizar o que temos de bom.
    Um beijinho.*

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  5. Quando andei no psicólogo uma das coisas que ele mais me ensinou foi a enfrentar esses maus momentos, eu evitava à força toda.. O que fazia com que eu ficasse ainda pior quando estava sozinha. Não sabia lidar com eles, não sabia lidar lembranças tristes. Verdade seja dita, aprender a enfrentar essas memórias foi a melhor coisa que me aconteceu. Por isso, valorizar o que temos de bom mas também valorizar o que aconteceu de mau :)

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  6. r: fiz a pré inscrição! agora que seja o que deus quiser! mas espero mesmo ir no 1º semestre para o ano! e ponho-vos a par de tudo! :)

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  7. Adoro esta rubrica, definitivamente! Traz sempre textos tão surpreendentes e inspiracionais. E este é um deles. Identifiquei-me imenso com este texto.
    Às vezes penso porque que a vida é tão difícil, e tenho a sensação que tenho mais maus momentos do que bons momentos. Mas sei que se a vida fosse fácil não valeria a pena, porque ninguém ia valorizar nada. É passando por maus momentos que nós podemos valorizar os bons. Claro que não nos podemos deixar consumir demais pelo passado, devemos retirar as lições que aprendemos com ele e seguir em frente.
    Beijinhos,
    Cherry
    Blog: Life of Cherry

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  8. Orgulho-me de ver a Carolayne com uma oportunidade destas - de escrever no "Tempo de Antena". Chegou cá há pouquinho tempo, mas já deu tanto à blogo. Chegou numa altura em que a blogosfera andava muito parada e sem graça e alegrou-nos de uma maneira especial, com a sua escrita cativante e ideias fantásticas. O seu cantinho vai crescer muito este ano, não tenho dúvidas. E sei que é especial para ela este tipo de oportunidades. Obrigado Carol por dares voz a bloggers menos conhecidos, mas que merecem muito reconhecimento. Sei bem o quão bom é receber um convite destes.

    Sobre o texto... eu revi-me muito nas palavras da Layne, pois sei exatamente o que ela quer transmitir. O texto está fantástico!

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