Thirteen

SOCIEDADE | "Sim, eu tenho medo de viajar sozinha. Mas vou."

"Então mas não tens medo de ir sozinha?” Quando uma mulher decide viajar sozinha, além da mochila, é também o peso desta pergunta que carrega nos ombros. Sozinha, ou acompanhada por outras mulheres, fi-lo muitas vezes ao longo da minha vida e de todas as vezes ouvi esta pergunta repetidamente antes de embarcar. Medo? Claro que sim. Mas estar dependente de presença de outrem para garantir a minha segurança enquanto ser humano, e satisfazer a vontade de ver o mundo, simplesmente nunca me fez sentido.

Quando se é mulher, a sombra da possibilidade de sermos assediadas pelo caminho, roubadas, eventualmente agredidas, violadas ou até mortas está presente na cabeça de quem se mete à estrada. Muitas vezes até de forma inconsciente, mas a sombra, essa está lá. Por mais descontraídas que sejamos, por mais ou menos civilizado que seja o destino. Mas isso não quer dizer que deixemos de ir. Não ir seria vivermos numa redoma, seria resignarmo-nos. E resignarmo-nos seria desistir de algo que deveria ser simples para qualquer pessoa, independentemente do género. Seria deixarmos de acreditar que existem pessoas boas mundo fora, e existem tantas que se cruzam connosco quando viajamos sozinhas. Seria ceder ao peso daquilo que poucos gostam de admitir, mas que todos sabemos ser verdade: o mundo continua a ser um lugar mais perigoso para as mulheres do que para os homens.

Marina Menegazzo e Maria José Coni eram duas jovens mulheres argentinas que se fizeram à estrada no início deste ano rumo ao Equador. Iam de férias, cheias de curiosidade, de vontade de conhecer o país, a sua cultura, as suas gentes. Foram dadas como desaparecidas no final de fevereiro. O mundo assistiu com horror ao aparecimento macabro dos corpos, com marcas da violência extrema. Na semana passada, os homens que as assassinaram confessaram o crime. Resumindo: duas mulheres foram de férias. Um grupo de homens achou-as ‘apetecíveis’ e fez-lhes uma emboscada para as tentar violar. Elas, como qualquer pessoa faria, resistiram. E foram mortas à paulada e à facada por isso.

Foi no Equador, um país onde como todos sabemos a violência contra as mulheres é comum. Mas podia ter sido em Lisboa, onde ainda todos nos lembramos, por exemplo, do relato da jovem italiana que foi sequestrada num quarto de hotel junto à baixa da cidade há uns anos, e violada dia após dia. Ou em Nova Iorque, em Paris, em Bombaim, em Banguecoque, no Rio de Janeiro, na Cidade do Cabo. A lista de possíveis cenários para um ataque a uma mulher sozinha – seja a viajar ou não - é infindável. Mais uma vez, porque a realidade é esta: o mundo continua a ser um lugar mais perigoso para as mulheres do que para os homens.

Quando olhamos para histórias hediondas como a do assassinato destas argentinas a única coisa que deveríamos ver era o crime e as razões que levam a que tal aconteça. Contudo, quando falamos de razões erguem-se comentários que todos deveríamos considerar inaceitáveis, até porque se fossem dois homens estes bem provavelmente não seriam feitos : “O que faziam duas mulheres sozinhas no Equador?”. “Que roupas tinham vestidas quando foram abordadas pelos homens?”. “Viajavam sozinhas, estavam à espera do quê?”.

É curioso que se continue a achar que elas viajavam “sozinhas”, quando eram duas. Elas viajavam acompanhadas uma pela outra. Mas o que este pensamento implica é que mulheres que viajam juntas, sem uma presença masculina, estão sozinhas. E estando ‘sozinhas’, são potenciais alvos para situações abusivas que não aconteceriam tão facilmente na presença de um homem. Percebem quão nefasto isto é?

Tudo isto até faria muito sentido ao falarmos de zonas conflituosas. Aliás, é senso comum evitarmos locais e situações onde o perigo é latente, sejamos nós homens ou mulheres. Cuidado e bom senso todos temos de ter. Mas continuarmos a dizer às mulheres que elas devem evitar viajar sem um homem – isto não vos faz lembrar a Arábia Saudita, por exemplo? - para se protegerem de eventuais perigos, é perpetuar a ideia de que o problema está nelas. De que caso algo de mal aconteça, elas têm parte da culpa. Porque foram, sendo mulheres.

Em vez de perguntarmos “o que estavam elas a fazer sozinhas no Equador?”, deveríamos começar antes a perguntar “o que é que podemos fazer para mudar o comportamento dos homens em relação às mulheres?” mundo fora. O problema não reside numa mulher que viaja sozinha, o problema ainda está na forma como uma boa parte do mundo – arriscaria mesmo a dizer, dos homens – continua a olhar para a figura feminina. A diminuí-la, a desrespeitá-la, a considerá-la um pedaço de carne, um alvo fácil. Foi isso que aconteceu com estas mulheres argentinas. A culpa, não convém esquecer, é exclusivamente de quem comete um crime tão bárbaro."


Texto de Paula Cosme Pinto (AQUI).

8 comentários:

  1. Fiquei profundamente trsite quando li esta notícia! Profundamente irritada por isto ser um facto no nosso Mundo!

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  2. Soube da notícia da morte das duas raparigas logo na altura em que aconteceu e este texto da Paula Cosme sobre o assunto não podia ter sido melhor escrito. É que é exactamente isto. Quando o mal nos acontece a nós, mulheres, perguntam sempre em que condições estávamos, procuram razões que possam justificar a brutalidade e irracionalidade dos homens - o que é para lá de revoltante. Além do ridículo que é considerarem que estamos sozinhas quando estamos em grupo, porque aparentemente ao não ter um homem connosco, até podíamos ser cinco ou seis: estaríamos "sozinhas". E mesmo que estivéssemos efectivamente sozinhas: NADA justifica. E irrita-me solenemente, porque se há coisa que detesto é ver limitações à minha liberdade, quanto mais quando isso acontece por ser mulher. Mais me espanta ainda quando vejo mulheres a questionarem-se sobre a possibilidade das vítimas "terem-se posto a jeito". Se ainda nem nós, mulheres, compreendemos os nossos direitos... Temos um longo caminho pela frente para conquistar a igualdade. Muito longo mesmo.

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  3. Li este texto ontem. Colei. Está tão bem escrito e, infelizmente, tão sensato e realista. Esta é uma realidade demasiado presente em todas as sociedades, sem excepção, e que infelizmente em algumas toma proporções desastrosas. E o que a Ana diz aqui em cima toca mesmo no ponto: quando são as próprias mulheres a questionar a legitimidade de uma mulher "sozinha" ser realmente a vítima, vemos que o mundo ainda está muito longe de ser justo.

    A propósito... http://www.dn.pt/sociedade/interior/tentou-fechar-as-pernas-pergunta-juiza-a-vitima-de-violacao-5068890.html - chocante. Prova cabal de que há muito e muita idiota perigoso/a por aí.

    Jiji

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  4. Não tinha conhecimento deste caso!! Esta crónica faz tanto sentido, nunca consegui entender esse tipo de perguntas como 'o que tinha vestido?', '...sozinhas o que estavam à espera?' e confesso que me faz ainda mais confusão quando essas perguntas são feitas por mulheres!!

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  5. Como já li tanta vez "não ensinem as raparigas a vestirem-se de determinada forma, ensinem os rapazes a respeitá-las" e isto aplica-se em tantas situações. Não ensinem as mulheres que não devem viajar sozinhas, ensinem os rapazes a não se meterem com elas. Simples. Isto é tema tão actual e no qual compreendo muito a seriedade. Sonho com um mundo onde uma mulher pode viajar sozinha e não ser vitima destas barbaridades.

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  6. Não tinha ouvido falar deste caso também! E bem, não há muito a dizer. Acho que o texto mostra exatamente o que penso e sinto. É triste.

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  7. Já tinha lido este texto e um outro relativo ao mesmo assunto. Infelizmente, é mais do mesmo. Se fossem dois homens, toda a gente ficava triste e revoltada, não questionando o porquê de estarem ali e outras coisas sem jeito. Mas como eram duas mulheres 'se calhar não deveriam ter ido' ou 'se calhar puseram-se a jeito'. E o pior é quando estes comentários são proferidos por mulheres. Ainda há tanto trabalho a fazer no que diz respeito à igualdade de género. Se calhar, deveríamos começar por perceber o significado da palavra sororidade. Enquanto não houver sororidade, enquanto as mulheres não se unirem e lutarem juntas por uma mesma causa, será difícil mudar mentalidades e conseguir um mundo mais justo e igualitário.

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