VIDA ACADÉMICA | O Ano de Transição

Na minha Faculdade e no meu Código de Praxe há, para além de todas as leis essenciais, uma regra que me parece extremamente pertinente: existe um ano de transição entre a nossa primeira Praxe e o momento em que damos a primeira ordem ou exigimos um cumprimento. Existe um ano que nos ajuda a definir que tipo de praxistas queremos ser e que nos livra das ilusões. Quando chega a hora de praxar, o negro não nos tolda o discernimento.

No segundo ano - ou com duas matrículas, como preferirem - não podemos praxar nem apadrinhar. Estamos numa posição neutra: já não somos caloiros mas também não somos verdadeiros Doutores. Trajamos e damos algum apoio - acompanhamos caloiros em caso de necessidade, ajudamos na organização das atividades - mas não estabelecemos regras nem damos ordens, apenas pintamos as caras dos caloiros. É um ano de aprendizagem.

E fico surpreendida por isso não ser algo usual na maioria das faculdades. Nos casos que conheço - e corrijam-me se estiver errada! - 1) os alunos de segundo ano afastam-se totalmente da Praxe (ficam apenas responsáveis pelo Cortejo e criam uma Comissão de Festas que garante as atividades e merchandising de curso) ou 2) ficam automaticamente habilitados a Praxar. Não existe um ano neutro, não existe um meio-termo; ou ficam de fora ou passam imediatamente para o outro lado, sem refletirem sobre as pessoas que querem ser, sem aprenderem com os erros dos outros, sem conhecerem outras perspetivas, sem observarem calmamente aquilo que se passa à sua volta (longe da pressão de ter que gritar (ainda) mais alto e longe do peso da responsabilidade que uma Comissão de Praxe acarreta).

Pessoalmente - e baseando-me na minha experiência pessoal -, parece-me que este ano de transição faz todo o sentido. É certo que nem toda a gente o aproveita e também é verdade que nem toda a gente lhe reconhece utilidade - são outros quinhentos! - mas eu considero-o extremamente pertinente e, no meu caso, acredito que tenha servido o seu propósito: foi o ano em que mais aprendi e o ano em que descobri o que queria mudar quando chegasse a minha vez.

18 comentários:

  1. Uma publicação curta, mas que explica o que muitos deveriam ler e saber no que toca à Praxe. Admito que nunca tinha ouvido falar desse ano de transição, mas fico bastante mais aliviada por saber que, quando chegar a minha altura, poderei ter a possibilidade de aprender com os erros dos outros e fazer melhor!

    A Vida de Lyne

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    1. Carolayne, eu não sei exatamente em que cursos/faculdades está estipulado este ano mas sei que não é algo comum na maioria dos casos. E tenho imensa pena que não o seja porque, pela minha experiência, reconheço que é um ano muito importante que cumpre o seu propósito quando bem aproveitado.

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    2. A sério? Uma pena mesmo. Um ano destes dava imenso jeito tanto para os Doutores como para os praxados... Com alguma sorte, o curso/faculdade onde quero ir tenha algo do género. Se não, é uma questão de ir retendo coisas ao longo do primeiro ano, para depois poder aplicá-las.

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  2. no minho acontece o caso 1), podemos praxar em trupe no segundo ano. mas eu acho que deviamos, de certa forma, ser 'ensinados' a praxar. digo ensinados no sentido em que podemos não ter tipo os melhores doutores do mundo, e não conhecendo outra forma de praxar vamos guiar-nos por eles. e acho que deviamos poder explorar um bocado no sentido de perceber aquilo que queremos fazer quando chegar a nossa altura exata. não me sei explicar muito bem xD

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  3. Como sabes, na Uminho, dedicamos o 2º ano à Comissão de Festas e preparação do cortejo. E faz sentido a partir do momento em que a forma de praxar e os objetivos de praxe são diferentes de um ano para o outro. Eu fui praxada de forma diferente das pessoas que entraram no ano anterior a mim (ou depois) e não me identifico, de todo, com a praxe deles. Pelo menos no meu curso há uma diferença gigante entre a praxe de quem entra num ano ímpar e de quem entra num ano par. Damo-nos todos bem, convivemos com bastante frequência e somos amigos, mas diferimos nos ideais de praxe. E não acho que isso seja errado, muito pelo contrário - há quem goste mais de uma, e há quem goste mais da outra.
    Trabalhar um ano inteiro para a Comissão de Festas foi, também, uma excelente oportunidade para ver quem dos meus colegas que foram batizados comigo me iriam acompanhar no ano de praxante. Uniu-nos imenso, e foi um ano longe da praxe que serviu também para crescermos enquanto pessoas e aprendermos a lidar uns com os outros nos momentos de maior stresse (porque passar uma semana fechados numa garagem com muita gente de manhã à noite não é nada fácil!).
    Por isso, tal como tu encaras o ano de transição como algo vantajoso para ti, eu encarei o ano afastada da praxe de igual forma. No 2º ano não estava, de todo, preparada para praxar e gostei de ir aprendendo conforme as reações e atitudes dos caloiros. Não fomos perfeitos em todos os aspetos - aqui falo enquanto comissão de praxe -, mas estou bastante satisfeita com o resultado. Para mim, não faria sentido de outra forma :)

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    1. Daniela, eu também fiz parte da Comissão de Festas no segundo ano (não lhe damos esse nome aqui mas tem os mesmos objetivos) e também trabalhei exaustivamente nesse sentido, tal como tu. Simplesmente, no meu caso, conciliamos as duas coisas e no segundo ano temos um ano de aprendizagem menos intenso a nível de Praxe (estamos presentes na Praxe mas não praxamos, apoiamos em coisas mais pequenas e assistimos - estamos no meio termo, na posição neutra). No segundo ano eu não estaria preparada para Praxar (se fosse essa a norma talvez estivesse mas não me sentia preparada para tal na altura, pelo menos) e acho que se me tivesse afastado totalmente (como muitos colegas meus) teria sido muito mais difícil voltar, impôr regras e saber lidar com os caloiros - tal como tu, eu aprendi muito com as reações e atitudes deles e tive oportunidade de aprender com os erros dos outros - todas as pessoas são praxadas de forma diferente e todos anos existem coisas que funcionam bem e coisas que não resultam, daí achar positivo ter tido a oportunidade de conhecer várias para encontrar aquela que se compatibiliza com os meus valores e a minha personalidade :)

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  4. Eu não estou dentro da praxe, mas realmente acho que na tua universidade as coisas estão bem feitas. Sempre achei que não fazia sentido passar logo de praxado para praxante, porque as coisas ainda estão muito "a quente" e ainda há muito viva aquela coisa de "agora vou fazer o mesmo que me fizeram". E também não concordo com o que fazem na UM, em que o segundo ano é praticamente fora da praxe - mas, entre uma opção e outra, acho melhor esta, porque sempre acaba por deixar alguma distância e tempo para pensar no tipo de praxante que se quer ser, sem ter tão viva a cede de "vingança"

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  5. Na minha faculdade, podes praxar no 2º ano, mas também és praxado! E isso fez sentido para mim. No entanto há uma hierarquia a cumprir (como há sempre!) e, é claro, quando te encontras perante alguém com mais matrículas, o teu "poder" não é muito. A função das pessoas com duas matrículas passa, especialmente, por fazer cordões e acompanhar os caloiros, embora nada os proíba de ter um papel mais ativo. Quantas mais vezes apareceres, mais oportunidades tens para tal!
    Beijinho*

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  6. Na minha faculdade em teoria também temos o ano de transição e só no terceiro é que apadrinhamos alguém. Mas (como em muitas outras regras da praxe) nem toda a gente cumpre essa lei e vi muitos miúdos de segundo ano darem ordens e apadrinharem miúdos, por vezes logo 8 de cada vez, que acaba por ser impraticavel porque nunca conseguem dar apoio a todos. Por estes e mais alguns motivos é que me desinteressei completamente das praxes, estas só valem a pena quando a comissão realmente se esforça por lutar por os seus valores, e não quando tratam aquilo só como mais uma desculpa para ir para os copos. Mas fico feliz por verificar que no teu caso as praxes são aquilo que deviam ser, porque esse é o espírito de ambiente académico :)

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  7. No meu caso (e em Lisboa desconheço casos diferentes, sem ser Direito na FDUL) podemos logo praxar no 2º ano sendo intitulados de "veteranos". Basicamente trajamos no final do ano de caloiro, e no inicio do 2º ano temos uma cerimonia que é a investidura (acho eu, pelo menos era o que está no manual do caloiro, sendo caloira nao tem 100% de certeza) em que passamos de "pseudo-veteranos" a "veteranos". No meu curso a maior parte dos praxantes são "veteranos", sendo que os "doutores" (alunos de 3º ano) costumam ser menos, dizem que no 3º ano muita gente se afasta da praxe para se dedicar aos estudos. A nossa Comissão é composta por alunos de 2º e 3º ano.

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  8. Ah e podemos apadrinhar logo no 2º ano!

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  9. Na minha faculdade (FMV-ULHT), também temos uma espécie de ano transição, em que somos chamados "Pastranos".
    Não nos trajamos, mas podemos acompanhar as praxes e ajudar na organização sem praxar.
    Existem apenas dois pastranos que praxam no seu 2º ano: o caloiro e a caloira do ano, que foram os elegidos nos votos de toda a gente que praxou o seu ano. Porém, não podem apadrinhar.
    Também acho que fez todo o sentido, embora algumas pessoas se queixem que gostariam que a diferença de anos entre padrinhos e afilhados fosse mais pequena.

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  10. Na minha escola também só podemos praxar e apadrinhar no 3°ano (ou quem tem 3 matrículas), sendo que no 2°ano somos chamados de maçaricos e apenas podemos pintar os caloiros. Também podemos ajudar a comissão de praxe no que for preciso e estar junto dos caloiros a falar com eles, mas não praxá-los. Se por um lado tenho pena de não poder ser já madrinha para o ano (ainda sou caloira) por outro sinto-me aliviada, porque o meu 2°ano vai exigir bastante da minha vertente enquanto estudante, e depois concordo contigo, é um ano de aprendizagem.

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    1. A única coisa que difere no meu caso é que na minha Faculdade, o segundo ano não está autorizado a conversar com os bichos/caloiros em momentos de Praxe nem a estar junto deles para além do tempo dedicado às pinturas :)

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  11. No meu curso também temos esse ano de transição, em que o segundo ano é denominado de Pastranos. Na minha opinião faz sentido quando tens um curso a partir de 4 anos, porque tens imenso tempo para viver cada fase da praxe, mas no teu caso com 3 anos de curso não sei se faz assim tanto sentido, já que estás a apadrinhar e a viver todos esses momentos de praxista enquanto finalista, com o tempo mais cortado e certamente menos à vontade pelo menos na agenda para conseguires viver esses momentos todos em comparação com o tempo e disponibilidade que terias no ano passado, em que não eras finalista nem estagiavas. Eu, pelo menos, noto muito a diferença entre ser uma madrinha e praxante finalista e uma madrinha e praxante estudante normal, não no sentido da competência a desempenhar o meu papel (porque esforço-me para que seja igual) mas no sentido da presença e no próprio sabor dos momentos e das coisas. Em cursos de 3 anos não acho que seja pratico esse ano de transição, embora concorde com a sua importância! :)

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    1. Curiosamente, achei o segundo ano mais apertado e complexo a nível de agenda e faculdade. E consegui sempre estar presente em todas as Praxes (todas as semanas até Maio), mesmo sem ter a obrigação de acompanhar os meus afilhados como sinto que tenho agora. Mas este ano mantive essa minha relação com a Praxe (sem faltas) fazendo até parte da Comissão de Praxe (com tudo o que isso implica). Não poderei estar presente nas Praxes diurnas de Abril por causa do Estágio mas penso que o saldo é positivo já que em três anos serão as únicas Praxes em que não estarei presente.
      Não posso comparar a postura de Madrinha em dois anos distintos - e não fazia sentido no meu caso, acho que o apadrinhamento é uma responsabilidade enorme para ser posta nos ombros de alguém logo no segundo ano - mas em termos de pragmatismo não me identifico com os problemas e dificuldades que apontaste. Consegui viver todos os momentos do início ao fim e faço tudo para continuar dessa forma (e fico imensamente triste por faltar às Praxes diurnas de Abril, mesmo que sejam apenas 4 ou 5 e mesmo que ainda tenha as noturnas para matar saudades).

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  12. Na minha faculdade também temos esse ano, onde nos chamam de Pastranos e esses alunos são envolvidos na organização de todas as praxe e também acompanham caloiros quando é necessário :)

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  13. Na minha faculdade a partir do segundo pode-se ser padrinho ou dar voz de Praxe, e acho isso brutal por várias razões: eu tenho 10 afilhados, 5 do meu segundo ano e 5 do meu terceiro ano. A minha relação com eles é diferente, com uns sou mais chegada (tipo amigos de faculdade - os que tive quando estava no 2º ano), e com outros existe um certo de respeito pela posição que tenho em Praxe (quanto mais velho mais "profundo" é o que o trajado diz), mas na minha Praxe não pintamos os miúdos, cada vez que nos reunimos existem jogos básicos que fomentam o espírito de grupo e as suas capacidades pessoais, e neste caso, enquanto os de segundo ano explicam as atividades, os mais velhos explicam a moral.

    Na minha opinião toda a gente tem algo a dar à Praxe, e nenhum ano te marca tanto quanto o teu primeiro ano trajada, quando te lembras lindamente do que é ser caloiro e se lhes queres dar tanto mais do que recebeste :)

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