TEMPO DE ANTENA | "Cada um faz o que sabe" - manifestações quotidianas do machismo

"Às vezes penso que caminhamos, a um passo que se vem tornando mais veloz, para uma sociedade plena em igualdade de género. Tenho uma imagem positiva da minha geração: mais informados, mais livres, mais igualitários, as mulheres com menos paciência para homens que não se enquadrem nestes valores e que ainda têm a esperança de fazer de nós criadas de servir. Mas depois alguma coisa, como o gráfico abaixo, faz-me tomar um banho de realidade e apercebo-me de que o machismo desenvolveu resistências difíceis de erradicar. 


Nesta coisa da divisão de tarefas domésticas, é comum ouvir, ou ler, uma mesma expressão: cada um faz o que sabe. Fazendo-se passar por uma ideia sensata – afinal, é positivo não ter que despender tempo em tarefas que achamos aborrecidas e para as quais não temos muito jeito – esta visão permite, na prática, a manutenção do papel das mulheres como principais cuidadoras do lar. É sintomático que, a cada vez que me deparo com essa afirmação, esta seja proferida por um homem que prossegue invariavelmente a explicar que as mulheres são melhores a passar roupa a ferro, lavar a louça, fazer o jantar e limpar a casa (e, quando há filhos, a maioria dos cuidados que estes comportam). Os homens, claro está, acorrem em auxílio sempre que é preciso consertar uma torneira ou levar o carro à oficina. Não é preciso estar-se muito atento para perceber o que está errado nesta imagem idealizada da vida conjugal: às mulheres cabe o cuidado diário da casa, horas de trabalho acrescentadas ao horário profissional; aos homens, tarefas pontuais. 

Esta é uma visão que rejeito liminarmente. E não preciso de recorrer a estudos que demonstrem o que deveria ser óbvio: que as tarefas domésticas são responsabilidades unisexo cuja a aprendizagem dispensa formação superior ou uma vocação particular. Não – basta-me fazer um pequeno exercício mental, recordando a minha própria aprendizagem destas tarefas. E o que constato é simples: eu não nasci ensinada, ou sequer inclinada, para desempenhar tarefas da casa. Aliás, ao contrário de muitas mulheres, ninguém me ensinou nada. Aprendi quando tive que aprender, quando percebi que, se não fizesse certas coisas, ninguém as faria por mim. Aprendi lavar a minha roupa porque sou eu quem a veste e deixou de me fazer sentido que fossem outras pessoas a ter essa preocupação. Aprendi a passá-la a ferro para não andar amarrotada. Aprendi a cozinhar porque decidi deixar de comer animais e pareceu-me óbvio que a responsabilidade de preparar as minhas refeições deveria ser minha. E também aprendi a mudar lâmpadas, a acender a lareira no inverno e o grelhador a carvão no verão, a não esperar que nenhum homem carregasse por mim os sacos de supermercado. 

Nada disto é física nuclear e nada disto tem género, é apenas ter competências básicas de sobrevivência. Quando precisamos, aprendemos. Depois podemos dividir, de acordo com as preferências de cada um – desde que essas preferências não sejam enviesadas por padrões de género que resultam numa atribuição intrinsecamente viciada e que beneficia um grupo à custa do outro."

7 comentários:

  1. Excelente análise - como sempre, a Nádia a ter um ponto de vista inteligente sobre estas questões. E que falta que isto faz na nossa sociedade. Nestas questões, uma das coisas que mais me vai irritando é o "ai ele é mesmo bom rapaz, ajuda em casa e tudo.". WHAT! Mas só as mulheres é que sujam, é isso? É uma visão totalmente bacoca mas que, infelizmente, se mantém. Já fizemos avanços em apenas uma ou duas gerações? Sim, claro, e isso é óptimo! Mas ainda temos muito caminho a percorrer!

    Jiji

    ResponderEliminar
  2. bem, na nossa casa, tanto eu e o meu namorado somos da opinião de que as tarefas são divididas e os dois contribuem para tudo, não há a conversa de eu por ser mulher tenho mais jeito para as tarefas da casa, cada faz o que gosta e à sua maneira.

    ResponderEliminar
  3. Ainda no fim-de-semana passado pensei sobre este assunto, ao ver, mais uma vez, a minha "sogra" empurrar tarefas domésticas para cima da filha (e, até aqui, tudo bem) e a deixar o filho "descansar" (sendo que estão ambos os filhos de férias, logo estão em igualdade de circunstâncias em termos de cansaço). Passei-me com isso, mas controlei-me porque, afinal de contas, não queria estar a gerar conflitos com a mãe do meu namorado. Mas virei-me para ele e disse-lhe, baixinho, "aproveita a boa vida agora, porque quando morares comigo não vai ser assim". Ele riu. Eu fiquei séria. Ele percebeu que eu não estava a brincar. Pois é, quem for meu companheiro de casa no futuro, terá de fazer tarefas tal como eu as vou fazer. Se eu lavar a loiça, ele vai arruma-la. E eu estender a roupa, ele vai apanha-la. Não há cá fadas do lar. Há pessoas que vivem naquela casa e têm de tomar conta dela da mesma forma.

    ResponderEliminar
  4. Concordo plenamente com o que disseste, eu comecei a aprender a passar a minha roupa a ferro para libertar um pouco a minha mãe, para não ter com que se preocupar com a minha roupa e eu não ter de ir pedir à "mamã" que me passe a roupa como muitos fazem.
    Eu acho que até tenho um bom exemplo em casa,pois o meu pai também ajuda a arrumar e efetuar outras tarefas se tiver que ser!
    Beijinhos
    Cantinho da tequis
    Facebook Cantinho da tequis

    ResponderEliminar
  5. Concordo imenso com a Nádia e as suas perspectivas perante variados temas e este é só mais um deles. Essa desculpa que os homens (e algumas mulheres machistas) usam para não terem determinadas tarefas não tem ponta por onde se lhe pegue! Não são as mulheres que têm mais jeito para passar a ferro, elas apenas o fazem com mais à vontade porque durante toda a vida desde cedo que é algo que lhes é incutido. Assim, se um homem desde cedo também passa-se a ferro sentir-se-ia igualmente á vontade a fazê-lo durante o resto da vida!

    ps: sou só eu que acho errado que o primeiro gráfico referente a tarefas domésticas não tenha uma legenda? Num mundo estereotipado como nosso, até um gráfico que «luta» pela igualdade de género faz a diferenciação dos mesmos com as típicas «cores de menina e cores de menino». E é assustador que nós, quem se depara com este gráfico, automaticamente saibamos que o azul é referente ao masculino e o rosa ao feminino.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Que perspicaz, arya! Estas coisas estão tão naturalizadas que nem me apercebi desse detalhe tão relevante.

      Eliminar
  6. r: A sério? :o Não entendo... mas no teu certificado vem escrito o quê? Só a média final?

    ResponderEliminar