Thirteen

TEMPO DE ANTENA | Ensino Superior: Matemática

"«Vais cansar-te de ver números à tua frente!»; «Deixarás de gostar e arrepender-te- ás de ter feito essa opção.»; «Isso não é vida para ti, o que vais seguir? Ensino?»; «Para malucos esse curso, de certeza que queres isso?»;… foram infindáveis os comentários negativos que tive de ouvir quando comecei a dizer às pessoas o que queria seguir. Na verdade, poucos foram aqueles que me apoiaram, consigo contá-los numa mão! Contudo, não percebo a surpresa de maior parte das pessoas. 

Desde pequena que onde quer que vá faço associações matemáticas e vejo em todos os detalhes algo relacionado com ela. Enquanto os meus amigos e primos andavam com livros de colorir atrás, eu carregava sempre a Nova Tabuada Ratinho, aquele livrito pequeno amarelo, e aqueles livros respetivos a cada ano repletos de exercícios diferentes. A minha Padrinha ensinou-me a resolver Sudoku quando eu tinha 7 anos, desde então, tenho sempre na carteira para me ocupar naquelas infinitas esperas para consultas, metros e essas coisas! 

Tive sempre professores formidáveis a Matemática. Todos eles trouxeram algo para a minha vida, tanto no Básico como no Secundário. Ainda hoje mantenho o contacto com todos eles. Incentivaram-me a ser mais e a dar tudo o que tinha. Porém, foi no 12º ano que senti a maior exigência e o importante empurrão para o curso. O meu professor era um crânio, conhecido por todos, temido na escola. Quando ele participava nos testes a nível global (ou seja, um teste para todas as turmas, podendo assim ser averiguada a posição em que cada uma se encontrava) os meus colegas de outras turmas rangiam os dentes de receio. Todavia, ele puxou por mim de uma maneira que só no final entendi. Contrariei todas as opiniões negativas e optei por me candidatar a Matemática em quatro universidades diferentes. Nunca duvidei que fosse entrar no Minho, porém, não podia correr o risco de não entrar no curso que queria! 

As minhas opções favoritas eram a Universidade do Minho e a do Porto. Coloquei o Minho em primeiro lugar por variadas razões: o plano parecia-me excelente, estava muitíssimo perto de casa e sabia que com o nível de dedicação que ponho nas coisas tanto me sairia bem cá como noutra universidade qualquer. 

Completei agora o primeiro ano e não me podia sentir mais realizada. O curso surpreendeu-me, os professores deixaram-me de boca aberta com os seus saberes, conheci pessoas incríveis e tive oportunidade de fazer parte de alguns projetos bem interessantes. 

É verdade irrefutável que a média de Matemática é baixa e, por isso, há uma grande tendência para desvalorizar o curso. Porém, não se deixem enganar, não venham para o curso só porque vos parece fácil! Digo sempre que é preciso gostar mesmo muito de Matemática para se meterem nesta aventura, principalmente, porque não vão ver apenas números! 

Desengane-se quem pensa que o meu curso só dá para Ensino, por favor, retirem este mito da vossa cabeça. Pelo contrário, quando comecei a pesquisar fiquei estupefacta com a quantidade de mestrados que temos ao nosso dispor (Economia, Estatística, Gestão, Engenharia, Programação, etc…) e com a imensidão de oportunidades que podíamos agarrar apenas com a Licenciatura. 

A relação aluno/professor é muito boa por ser um curso pequeno. A disponibilidade que fornecem é incrível, a forma como nos envolvem nas aulas não é nada como aquelas histórias que ouvíamos em crianças. Como uma turma de secundário, os docentes conhecem quase todos os alunos e sabem bem quem está lá para trabalhar e quem está lá apenas para passar tempo! 

O plano de estudos é simples… nunca temos mais do que 5 cadeiras por semestre e a avaliação é feita de forma justa e simples, a maior parte das cadeiras é feita por frequências e creio que são poucas aquelas em que temos trabalhos. 

O primeiro ano prepara-nos para os dois seguintes. Temos as bases do curso, Álgebra Linear I e II, Cálculo I e II, Matemática Computacional I e II (mais direcionadas para a programação), Tópicos de Matemática, Geometria e Matemática Discreta (das minhas favoritas, pois, estudámos a teoria de números). Não são apenas números! Temos de estudar os teoremas e axiomas que estão na base da Matemática e tentar perceber porque fazem eles sentido, coisas que parecem simples aos olhos dos não-matemáticos são-no, porque, os célebres Matemáticos estudaram anos e anos a fio para tentar simplificar e, mesmo assim, dar-nos a conhecer mais da bela Matemática. 

O segundo ano, pelas opiniões que ouvi, é muito diferente, porém, igualmente interessante, composto por 8 unidades curriculares: Álgebra (o bicho), Análise I e II, Análise Numérica I e II, Complementos de Álgebra, Geometria Diferencial e História do Pensamento Matemático (mal posso esperar!). Já o terceiro ano é composto por 9 cadeiras e 3 das do segundo semestre são optativas: Lógica e Fundamentos da Matemática, Métodos Matemáticos da Física, Probabilidades e Aplicações, Estatística e Temas da Matemática são as definidas pelo Plano de Estudos, sendo que Temas é baseada no elaborar de um trabalho com apresentação na reta final! 

Não tem mestrado integrado, porém, como já referi, as portas que se abrem são imensas e podemos sempre optar por o fazer em variadas áreas. 

Não queria muito adiantar destes dois anos, uma vez que ainda não passei por eles. Contudo, os meus colegas mais velhos, até aqueles que este ano já realizavam o primeiro ano de mestrado, têm opiniões positivas sobre o curso no geral. Aliás, a maior parte das pessoas que entra acaba por querer levar o curso até ao fim. 

Do meu ponto de vista, foi um ano tão cheio que nem consigo descrever. Tirar boas notas e ter uma excelente prestação no curso não me impediu de fazer parte da Praxe e de todas as atividades que a envolviam, aliás, a Praxe de Matemática tem imensa história nesta universidade. Assim como também não me incapacitou de fazer parte do Núcleo de Estudantes de Matemática que foi reativo este ano e trouxe com ele uma série de atividades, palestras e contactos interessantíssimos. O companheirismo e entreajuda que senti com os do 2º e 3º ano foi enorme. Ainda tive oportunidade de conhecer alguns alunos do 4º e 5º ano (já nos seus mestrados), pessoas incríveis que me falaram, ajudaram e orientaram no curso. 

Não vou dizer que é um curso fácil, estaria a mentir, na verdade, é daqueles fáceis de entrar, porém, difíceis de sair. A média de anos que os alunos demoram a completar o curso acho que é de 5... o curso tem apenas 3!!!! 

Todavia, é um curso lindo! Eu sabia que ia adorar cada dia do meu percurso. Não deixei de ter tempo para os meus amigos, saía regularmente. Pude ainda inscrever-me na Patinagem Artística. Fiz parte da Dircção do Núcleo. Tive 100% de assiduidade na Praxe. Houve tempo para tudo, porque, se nós quisermos, nós PODEMOS TUDO! E este curso não contradiz esta verdade."


Joana, Aluna do Primeiro Ano da Licenciatura em Matemática na Universidade do Minho.

[Se tiverem dúvidas ou questões podem deixá-las na caixa de comentários. A Joana irá responder às vossas perguntas no mesmo espaço assim que possível.]

Mais sobre Matemática: AQUI

10 comentários:

  1. O curso de Matemática apenas dá para Ensino e Investigação.
    Para as outras áreas tem de ser ir pelas licenciaturas de Matemática Aplicada, Estatística Aplicada ou Matemática Aplicada à Computação.
    Eu já fiz o curso, portanto sei do que estou a falar :) Mas sim, é preciso mesmo gostar MUITOOO de matemática para conseguir fazer este curso e são raras as cadeiras em que se trabalha realmente com números.

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    1. Não, o curso de Matemática não dá apenas para Ensino e Investigação. Nós, Matemáticos, podemos sim seguir Computação, Engenharia, Estatística, Economia, etc., como a Joana referiu. E sim, podemos fazê-lo com a Licenciatura em Matemática, não sendo preciso ser "aplicada".

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    2. Como a Kiara já disse, pelo menos na Universidade do Minho, a Licenciatura em Matemática é muito versátil, não havendo sequer Matemática Aplicada!
      As coisas mudaram.
      Costumo dizer que nunca vi tantas letras na minha vida! Ainda por cima, também trabalhamos com as gregas(?)!

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  2. Gabo-te a coragem Joana! A sério, matemática não é de todo para mim!

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    1. Fico triste que digas isso! Porém, se precisares de alguma dica ou de tirar alguma dúvida, avisa-me! :)
      Cada um tem a sua vocação!!!

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  3. Apesar de ser a minha disciplina favorita (facto que acredito que se deva em grande parte aos professores fantásticos que tive até hoje), acho que não seria o curso para mim.
    Só por curiosidade, embora só tenhas acabado agora o primeiro ano, já tens alguma ideia do rumo que queres seguir no mestrado?

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    1. Porque dizes que não seria o curso para ti? Gostava de explorar essa tua afirmação...

      Sim, eu consigo ver um futuro ligado a uma matemática profunda, à constante procura de mais problemas, à incessante busca da simplicidade matemática. Por isso, se tudo correr bem e, de facto, tiver vocação para isto, vou para Mestrado em Matemática (Pura), seguindo Investigação e permitindo-me viajar e conhecer mais o mundo, que é algo que faz parte dos meus planos.

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    2. Eu quero seguir gestão ou economia, que pela publicação também dá para seguir por matemática (e dos mestrados que falas são os únicos que me despertam interesse). Tendo em conta que ainda por cima sou de ciências e já sei a área que quero, acho que faria muito mais sentido fazer já a licenciatura nessa área.

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    3. Sim, se já tens ideia do que queres mesmo seguir, talvez te seja mais vantajoso ir logo para a área! Como eu disse, o que eu sempre quis foi Matemática, esses dois mestrados são algo que posso ter ou não em mente!

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