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TURISMO | Adults Only

Todos os anos há uma - ou várias - polémicas relacionadas com o Turismo em Portugal, na Europa e no Mundo. Nos últimos meses têm surgido várias e eu tenho andado atenta a cada uma delas, tentando perceber os argumentos de ambas as partes e desenvolvendo a minha própria opinião sobre cada temática. Uma dessas polémicas está relacionada com os "hotéis sem crianças" que, apesar de não serem novidade - porque existem há anos, incluindo em Portugal - voltaram a ser tema de conversa neste Verão.

Para quem não está familiarizado com o tema, o que se passa é o seguinte: existem hotéis, um pouco por todo o mundo, que definem uma idade mínima para a estadia e/ou para a utilização de determinados serviços. E se por um lado estes mesmos estabelecimentos hoteleiros afirmam que é uma questão de posicionamento no mercado, por outro lado a DECO diz que é ilegal. Os hotéis querem assumir-se como espaços sossegados sem serviços indicados para crianças (que não são obrigados a ter) e definem uma idade mínima para a estadia para atrair um público-alvo mais específico mas, ao mesmo tempo, são vistos com maus olhos por adaptarem a sua oferta a motivações de viagem tão particulares e por proibirem a entrada a um grupo de pessoas - neste caso crianças.

Confesso que a existência de hotéis não recomendados para crianças não me causa confusão. Porém, parece-me que a polémica foi desencadeada pelos termos escolhidos: uma recomendação e uma proibição são coisas diferentes e a utilização do segundo termo pode dar aso a discriminações futuras (honestamente, acredito que o medo da maioria da população que defende o fim desta restrição resida neste ponto - as crianças são pessoas e o critério da idade acaba por ser tão válido como o do género ou da raça).

Até que ponto será legal proibir, apenas pela idade, a estadia de alguém? Seria igualmente válido proibir a estadia de idosos ou jovens-adultos? A lei diz que o estabelecimento tem "o direito de proibir a estadia a qualquer indivíduo que perturbe o normal funcionamento do espaço" mas ninguém sabe se aquela criança que viaja com os pais é um autêntico diabrete ou se, na verdade, é uma paz de alma que não incomoda ninguém. Se é crime fazê-lo pela raça, pela orientação sexual ou pelo género... poderão fazê-lo pela idade? Teoricamente não. A proibição fará todo o sentido em serviços e zonas inadequados aos mais novos - casino, bar, discoteca, ginásio, spa (...) - mas será aplicável a todo o estabelecimento? Não me parece (a não ser que todo o espaço seja inadequado, obviamente). E é por isso que alguns hotéis optam por oferecer os mesmos serviços em duas versões diferentes (só para adultos e para adultos e crianças) - acontece muitas vezes nas zonas das piscinas, por exemplo. Porém, isto acarreta custos acrescidos que nem todos podem ou querem suportar - perfeitamente compreensível.

O que acaba por acontecer é que, em vez de uma proibição polémica, alguns hotéis expressam indubitavelmente esta característica ao indicarem que não recomendam a estadia a menores de idade - a comunicação é a chave e o resultado acaba por ser o mesmo quando comparado com o dos hotéis que optam pela proibição. Os pais escolhem outro estabelecimento para as férias em família e o hotel mantém as características que o diferenciam dos seus concorrentes. Simples. Em Portugal ainda não houve queixas relacionadas com a proibição de crianças  em estabelecimentos hoteleiros por isso parece-me que as pessoas respeitam estas indicações sem grandes dramas - ninguém quer fazer férias num local onde não é bem-vindo ou que não disponibiliza infraestruturas necessárias ao estilo de viagem que pretende realizar.

Um hotel não indicado para crianças possivelmente terá uma política mais rigorosa no que diz respeito ao ruído, não terá ementas especiais para crianças, não terá cadeirinhas para as horas das refeições, não terá serviços de babysitting, não terá animação adequada aos mais pequenos, provavelmente não terá berços ou camas-extra para colocar nos quartos, poderá até nem ter canais de televisão adequados à sua faixa etária e não terá clube infantil. Será mesmo o que os pais procuram? Um hotel que não dispõe de infraestruturas ou serviços adequados à motivação da viagem provavelmente não será a melhor escolha, correto? E provavelmente não o escolherão por não reunir as características desejadas; mesmo sem uma proibição explícita.

O posicionamento e a segmentação são importantes no Turismo e não são necessariamente algo de negativo. É ilusório pensar que num hotel sem crianças não vão haver bombas para a piscina ou gritos - na verdade, muitas vezes o que nos incomoda são as atitudes dos mais velhos que não sabem respeitar quem os rodeia - mas a existência de hotéis "child free" parece-me tão pertinente como a existência de hotéis "child friendly".

5 comentários:

  1. Agora que abordas o assunto, realmente já tinha reparado na internet que há hotéis que fazem esse tipo de avisos ou sugestões e sempre achei algo natural. Acho que tem realmente a ver com a forma de comunicar: sugerir e adverter ou proibir. Mas existem realmente hotéis que proibem a entrada de crianças ou põem idade limite?
    Não conhecendo muito do mundo do turismo, não tenho bem opinião formada quanto a essa proibição (não abordando a questão da lei), mas acho que cada hotel tem o direito a ter o seu próprio conceito e a "avisar" o público disso mesmo. :)

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    1. Sim, Mariana. Existem hotéis que não aceitam a reserva quando o hóspede é menor (de 16 ou 18, depende). No entanto, estes não são diferentes dos hotéis que optam por recomendar em vez de proibir. O resultado acaba por ser o mesmo porque as famílias respeitam essa questão - a maior parte destes hotéis, como refiro, não reúne condições (serviços e infraestruturas) necessárias à estadia de uma criança e, uma vez que os pais são informados disso, não se sentem discriminados, simplesmente optam por outro local.

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  2. Acho que foi a opinião mais coerente e simples que li até agora.
    Na verdade, fico um pouco indignada com esta questão, pois, como disseste, dizer que não podem lá estar crianças pode ser visto como algo "racista", não no sentido lato da palavra, mas como sinónimo.
    Todavia, percebo o conceito da recomendação, se efectivamente o hotel não tem as condições necessárias para receber um bebé ou uma criança, então deve descriminá-lo na descrição... o problema é que isso só difere na palavra utilizada, como referiste: recomendação/proibição. Ao eliminarem todas essas coisas próprias para a faixa etária abaixo dos 18 estão, basicamente, a dizer que não os aceitam.
    Penso que nunca faria alarido em relação a este assunto, porque, se um hotel não tem o que preciso, escolho outro! Básico.

    (Acho que fui confusa...)

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  3. Gostei de te ler, e parece-me que tens uma perspectiva saudável sobre o assunto. Podendo escolher, eu também não levaria uma criança para um local fechado onde se possa fumar, por exemplo, mesmo que lhe seja permitida a entrada (isto é um exemplo um bocado exagerado, mas acho que se percebe). A questão da proibição vs recomendação parece-me fulcral aqui. Bem pensado, Carol.

    Jiji

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  4. É tudo uma questão de mercado. As cadeias de hotel oferecem os serviços que querem fornecer, e adaptam ao público alvo que querem. Sem dúvida que a chave é a comunicação. Ao sugerir não há uma imposição, mesmo que o resultado seja o mesmo, mas os clientes são muito mais avessos à imposição, encarando a sugestão como uma aviso atencioso dos serviços que cada hotel oferece ou não, cabendo a si escolher onde passar os seus dias de férias. Na verdade, é muito engenhoso.
    ***

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