Thirteen

SAÚDE | A Carolina foi à Pedopsiquiatra

Os meus ataques de pânico começaram (muito) cedo. As imagens do Tsunami na Indonésia em 2004 - repetidas incansavelmente pelos meios de comunicação - deixaram-me aterrorizada e despertaram um pânico anormal numa miúda que ainda frequentava a Escola Primária. Os pesadelos eram frequentes, eu acordava a chorar vezes e vezes sem conta durante a noite, o coração a mil durante o dia passou a ser uma constante e o meu organismo passou a estar permanentemente em alerta. E se para um adulto é difícil compreender o que se passa durante um ataque de pânico, conseguem imaginar como será para uma criança com menos de 10 anos? E se um adulto é acusado de fazer fita quando admite um problema de ansiedade, imaginam que uma criança possa ser julgada muito mais rapidamente quando deixa transparecer os sintomas, correto?

Os meus pais rapidamente perceberam que eu não estava bem e, não desvalorizando as minhas emoções, procuraram a ajuda que eu precisava e que não podia procurar sozinha tendo em conta a minha idade e a minha ignorância perante o tema - estou-lhes eternamente grata por não terem esperado que passasse. Durante algum tempo frequentei o consultório de uma pedopsiquiatra - uma psiquiatra especializada na infância e na adolescência - que me tentava explicar tudo aquilo que eu não compreendia e que, ao mesmo tempo, tentava descobrir a raiz do meu problema e os truques para o contornar. Em cada sessão eu conversava, fazia desenhos, tentava descrever o que me amedrontava.

E isto é importante abordar porque a maior parte das crianças não tem a mesma sorte - os professores não estão suficientemente atentos aos comportamentos subtis dos alunos (especialmente agora, com turmas cada vez maiores) e os pais acreditam que aquele comportamento é um pedido de atenção desesperado quando, na verdade, pode ser algo sufocante e assustador para a criança. Há muitos miúdos que fazem birra por tudo e por nada, que inventam dores aqui e ali e que choram compulsivamente sem razão aparente, sim, mas também há outros que precisam de ajuda e que não têm consciência disso. Há que saber distinguir as duas coisas e há que saber apoiá-los da forma certa no momento certo.

Se queremos que as doenças de foro psicológico sejam aceites com naturalidade, é pelas crianças que devemos começar - mostrar-lhes que nem todas as doenças são visíveis é o primeiro passo para formar adultos mais conscientes e sensíveis. Não vamos usar este tipo de doenças - ansiedade, depressão, hiperatividade ou outras que tais - como desculpa para faltas de respeito e birras que facilmente se resolvem com um castigo porém vamos abrir os olhos àquela que é a realidade de muita gente. Equilíbrio, atenção e bom senso, sempre.

9 comentários:

  1. Não consigo imaginar como seria, que imagem terrível e que informação desoladora. Parece que com o passar dos anos só desevoluimos e que tudo é fita e birra, este assunto é tao importante que se fale mais abertamente sobre!

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  2. Concordo tanto tanto com o último parágrafo. Hoje, a entrar para o 12º ano - ainda por cima estando em ciências com biologia - nunca ouvi professores falarem de doenças do foro psicológico e isso revolta-me profundamente porque sinto que não se está a fazer nada num foco importante - adolescentes - para diminuir o estigma social existente neste campo. Há tanto cuidado em criar awareness sobre doenças como por exemplo o cancro (o que continua a ser extremamente importante), por que razão não se há de criar também sobre doenças mentais?!

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  3. Uau. Se isso é assustador para um adulto, nem consigo imaginar para uma criança...tens uns pais maravilhosos! É preciso muita atenção a estas questões. Acho que o teu último parágrafo é genial!

    Jiji

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  4. Ha muita gente --mesmo adultos -- que sofrem de ansiadade e que nao sabem ligar com isso. E os os que vao ao psicológico acham muitas vezea que nao ta a resultar. Mas nao é de um dia para o outro que as coisas mudam. As vezes sao preciso anos de acompanhamento...

    Beijinho
    The-not-so-girlygirl.blogspot.com

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  5. obrigada carolina. é mesmo importante que partilhes isto, e é ótimo que te sintas bem para o fazer :)

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  6. Exactamente! Uma criança pode fazer a birra porque quer alguma coisa, mas quando é algo que a assusta as reações não são as mesmas. O teu segundo parágrafo devia de ser lido por milhares de pessoas. Faz o maior sentido para esta situação como para tantos outros problemas que não são detectados a tempo e mais tarde, têm consequências.

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  7. Infelizmente, os adultos tendem a ignorar uma série de sintomas nos miúdos, até em coisas mais simples: A minha prima não falou até aos 4 anos e toda a gente dizia que se devia ao facto de ser mimada... uma vez, levámo-la ao doutor (depois de eu muito insistir que não era normal e ela não era assim tão mimada) e descobriu-se que ela tinha uma deficiência nos ouvidos que se podia facilmente curar com uma pequena operação! Agora fala que é uma maravilha, melhorou apenas em 6 meses. Podia ter atrasado tudo a nível intelectual, simplesmente porque acharam ser mimo.
    Quanto a foro psicológico, o meu primo tem hiperactividade, porém, toda a gente achava ser má criação. Quando a minha tia o levou ao pedopsiquiatra e começaram a agir «contra» a doença, ele começou a comportar-se muito melhor e, neste momento, nem se nota muito.
    É uma questão de não ignorarmos e acharmos que é tudo uma questão de palmadas, maior parte das vezes, até pode ser, comigo e com a minha irmã, algumas palmaditas chegaram para nos acalmar e pôr no lugar. Todavia, há crianças que precisam mesmo de ajuda e não é uma questão de educação, antes fosse!

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  8. Fico feliz por saber que os teus pais nunca desvalorizaram a tua situação e deram-te a ajuda de que precisavas. É como tu dizes, muitas crianças não tiveram a mesma sorte, porque estas coisas tendem a ser muito desvalorizadas pelos adultos. Enerva-me a ignorância das pessoas que dizem " ai, aquele tem problemas de ansiedade, no meu tempo levava duas chapadas no rabo e passava". Apetecia-me bater-lhes quando dizem isso!
    Tenho uma amiga que sofre deste problema, que tem muitos ataques de pânico, e não é algo que faça para " chamar à atenção" como muitos dizem, ela não consegue controlar mesmo os sintomas nem os tremores, frio e calor que lhe vem alternadamente. Uma vez tive que sair de uma aula para a ajudar, porque um simples auditório barulhento e cheio de gente é suficiente para desencadear os ataques de pânico dela.

    Obrigada por teres a coragem de falar deste assunto tão abertamente :). Se mais pessoas abordassem o assunto dessa maneira, abertamente e sem rodeios, as doenças de foro psicológico já não seriam tão tabu como são.
    Beijinhos,
    Cherry
    Blog: Life of Cherry

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  9. Ter de passar por um processo desses enquanto criança deve ser bastante avassalador. Felizmente, e com a ajuda dos teus pais e profissionais, tens vindo a enfrentar esse demónio da ansiedade; e eu admiro-te por quereres mostrar aos teus leitores que isto é uma doença que merece atenção e ser tratada!
    Tomaste a melhor decisão ao contares a tua história de forma mais aprofundada. Espero que estas publicações te ajudem a ti e àqueles que sofrem do mesmo!

    A Vida de Lyne

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