Thirteen

SOCIEDADE | Falamos de Feminismo?

A minha educação levou-me a ser feminista sem saber que havia um nome para aquilo em que eu acreditava. Agora que sei que há, continuo a acreditar nos mesmos valores: que todas as crianças devem ir à escola, brincar com os brinquedos que bem entendem e vestir a cor que mais gostam; que um homem e uma mulher na mesma função e a trabalhar as mesmas horas nas mesmas tarefas devem receber a mesma remuneração; que é uma parvoíce os homens pagarem mais do que as mulheres quando querem ir à discoteca; que não é aceitável ter medo de vestir uma minissaia ou de andar na rua sozinha; que ninguém está acima de ninguém apenas porque tem um útero ou uma próstata. Chamar "igualdade de género" ou "feminismo" àquilo em que acredito é, na verdade, uma questão de preferência.

Cresci com filmes de animação que nunca me fizeram questionar o meu poder - se de um lado havia a Bela Adormecida que era acordada pelo príncipe, do outro havia a Mulan (a minha favorita) que ia à luta sem medos. Passei pela fase de adorar cor-de-rosa e pela fase de detestar cor-de-rosa. Fiz parte do clube de arte e joguei numa equipa de futebol. Será que fui menos menina na altura em que gostava de jogar futebol e detestava saias e vestidos? Não. Será que condenei o meu futuro de mulher forte e determinada quando passei a adorar cor-de-rosa e a fazer parte do estereótipo que a sociedade havia definido? Não. Nem pensar.

Enquanto sociedade, não estaremos a exagerar nesta história do feminismo e da igualdade de género?Vamos obrigar os rapazes a brincar com bonecas mesmo quando detestam bonecas? Vamos inscrever as nossas filhas nas escolinhas de futebol quando o que elas querem mesmo é ir para as aulas de ballet? Se o feminismo falasse, a resposta seria simples: deixem os miúdos brincar com os brinquedos que mais gostam e inscrevam-nos nas atividades em que eles se sentem mais felizes. Comprar uma mochila do Homem Aranha para a menina que quer a mochila da Doutora Brinquedos não vai tornar ninguém mais feminista ou defensora dos direitos das mulheres (até porque não há uma escala para isso) mas mostrar-lhe que pode escolher a mochila azul em vez da cor-de-rosa se assim desejar é importante.

Sou totalmente a favor do movimento feminista - e não é a t-shirt que visto de vez em quando que o prova - mas parece-me que estamos a assistir a um novo movimento que não pode ser chamado de "feminismo" e isso preocupa-me. O feminismo não defende que a mulher não deve depilar-se, usar soutien ou maquilhar-se; defende que deve fazer aquilo que entender de forma a sentir-se bem consigo mesma, tal e qual como um homem faz. O feminismo não defende que os meninos não podem brincar só com dinossauros, carros e pistolas de água nem que as meninas só podem brincar com bonecas, castelos e mini cozinhas; defende que cada criança é livre de escolher os brinquedos que prefere sem ser gozada por isso. O feminismo não defende o ódio aos homens (nem o ódio às mulheres, já agora). O feminismo não defende que as mulheres têm de ser, obrigatoriamente, empreendedoras e líderes; defende que devem ter essa possibilidade se assim desejarem e se trabalharem para tal. O feminismo não defende que os homens devem ficar em casa a cuidar das crianças ou que devem fazer todas as tarefas domésticas enquanto a mulher vê televisão; apenas nega a definição ou divisão de tarefas com base no critério do género.

Não é aceitável contratar uma mulher apenas porque é mulher (na verdade, é tão mau como não a contratar pela mesma razão). Não é aceitável obrigar uma menina a cuidar da casa enquanto o irmão vai à escola. Não é aceitável ignorar as queixas de violência doméstica apresentadas por homens. Não é aceitável uma mulher ter medo de viajar sozinha. Não é aceitável um homem ser forçado a esconder a sua paixão pela dança. Não é aceitável uma atleta ter receio de ir correr ao final da tarde, no Inverno. Não é aceitável obrigar um homem a pagar uma entrada mais cara na discoteca só porque sim.

Feminismo é igualdade de género. É saber que o facto de termos uma vagina ou um pénis não vai definir o nosso futuro e que este será influenciado exclusivamente pelas nossas atitudes, pelas nossas escolhas, pelas nossas capacidades, pelo nosso esforço, pelo nosso trabalho, pelas nossas vontades. Simples assim.

9 comentários:

  1. Este post resume tudo aquilo que penso. Nos últimos tempos tenho-me deparado com cada comentário nas redes sociais sobre este assunto (de homens e mulheres) que chego a ficar assustada com a mentalidade das pessoas (e alguns bastante jovens até!). Vivemos numa sociedade dita livre, mas que na primeira oportunidade julga e impõe determinados comportamentos. Temos ainda muito que lutar pela igualdade de géneros, para que qualquer mulher possa ganhar tanto quanto um homem na mesma posição, e um homem possa apresentar queixa de violência doméstica sem sentir vergonha ou ser humilhado. Obrigada por este teu post, Carolina!

    ResponderEliminar
  2. Assino por baixo, com a minha melhor letra! Acho que a questão do feminismo está a atingir proporções tais que, às tantas, já não se está a falar de feminismo. Para mim a liberdade de escolha está acima de qualquer movimento X ou Y.

    ResponderEliminar
  3. Concordo muito!! Como é que um conceito tão aparentemente simples pode ser tão difícil de entender e aceitar?

    ResponderEliminar
  4. Muito OBRIGADA por este post! Penso exatamente da mesma forma, mas nunca transmitiria tão bem a minha opinião como tu o fizeste. Definiste na perfeição aquilo que é o feminismo.
    Ser feminista é defender a igualdade de géneros, e não defender que a mulher é melhor do que homem. Concordo, acho que estão a exagerar neste movimento feminista e a transmitir valores completamente errados. Para sermos feministas não precisamos de deixar de usar maquilhagem, deixar de nos depilarmos, jogar futebol ou odiar os homens. Ser feminista é defender que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, e isso vale tanto para defender que temos direito a ganhar o mesmo que eles, como a defender que eles deviam pagar o mesmo que nós nas discotecas ( esse ponto que referiste da discoteca é mesmo verdade, porque raio é que eles pagam mais do que nós para entrar?).
    Acho que as pessoas que têm necessidade de se afirmar feministas, na verdade, são aquelas que são menos. As verdadeiras feministas ( ou verdadeiros, visto que os homens também podem ser feministas, é como eu ser branca e defender que as pessoas de pele escura são iguais a mim) não têm necessidade de estarem por aí a afirmarem-se e a tomar atitudes radicais, simplesmente defendem e praticam no seu dia a dia a igualdade de géneros.
    Toda a gente devia ler este post!
    Beijinhos,
    Cherry
    Blog: Life of Cherry

    ResponderEliminar
  5. say it louder Carolina!! Muitos parabéns mesmo por esta publicação que toda a gente deveria ler. Acho que tocaste em todos os pontos importantes do tópico e nada descrever melhor o feminismo como o que disseste "Comprar uma mochila do Homem Aranha para a menina que quer a mochila da Doutora Brinquedos não vai tornar ninguém mais feminista ou defensora dos direitos das mulheres (até porque não há uma escala para isso) mas mostrar-lhe que pode escolher a mochila azul em vez da cor-de-rosa se assim desejar é importante." Tem a ver com a existência de uma escolha que não deve nunca ser condicionada pelo nosso género

    ResponderEliminar
  6. Excelente reflexão Carolina!
    No outro dia saí à rua de calções e top de alças para ir tratar de uns assuntos e pouco tempo depois de sair eu já só queria voltar para casa. O número de apitadelas, olhos colados, bocas e até carros que abrandaram só para "apreciar melhor" meteu-me nojo e muitos deles tinham idade para serem meus pais ou avôs! A certo momento até entrei numa casa de banho para ver se não tinha os calções sujos ou coisa parecida porque eu não estava a achar aquilo normal. Deixei de me sentir confortável a vestir aquilo, A MINHA ROUPA, e jurei a mim mesma que só o voltava a fazer quando estivesse acompanhada pelo meu namorado. Não é suposto ser assim... :(

    ResponderEliminar
  7. É só isto, é tudo isto, sem tirar nem por. Feminismo é igualdade e liberdade para todos, homens e mulheres, sem preconceitos ou limitações. porque somos seres humanos e podemo-nos expressar como queremos, sem que o colectivo viva de preconceito. Que a individualidade possa ser expressada dentro da liberdade e do respeito!

    ResponderEliminar
  8. Aplaudo-te! É mesmo isto! O feminismo não defende a supremacia feminina, nem a imposição de gostos, brinquedos, profissões, etc...! Dos melhores textos que já li em relação ao assunto!
    https://sunflowers-in-the-wind.blogspot.pt/

    ResponderEliminar