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SAÚDE | Hospital de Viseu

O meu tio acabou por falecer no quarto do serviço de oncologia do Hospital de Braga. Dias antes, eu tinha escrito ESTA publicação sobre o quão bem tratado ele estava a ser e o quão atenciosa era a equipa de profissionais que o acompanhava diariamente. O fim não foi o que nós desejávamos - e ainda custa muito, claro que sim - mas sei que ele esteve sempre confortável, que as suas dores foram sempre diminuídas e que, ali, lhe deram tudo o que puderam para ele se sentir melhor. O Hospital de Braga recebeu-me diariamente durante semanas e as suas paredes abafaram as minhas lágrimas muitas vezes - algumas delas com a desculpa de que estava só a tirar um café da máquina ou que o dia no trabalho tinha corrido mal - mas nunca, em momento algum, aquela equipa me fez sentir que o estado do meu tio piorava porque não estavam a tratá-lo da melhor forma. Nunca, em momento algum, eu senti que o meu tio poderia morrer por falta de cuidados ou por negligência médica. E, de certa forma, isso tranquilizava-me - eu sabia que ele, dentro do possível e por muito que custasse vê-lo assim, estava a receber toda a atenção e toda a medicação que precisava.

E se o Hospital de Braga merece todos os aplausos e elogios, o Hospital de Viseu merece ser punido pela negligência e falta de sensibilidade das pessoas que lá trabalham. Não serão todas, bem sei, mas um profissional de saúde que é mal-educado para as famílias, que dá respostas tortas e que desvaloriza sintomas nunca deveria ter sequer a possibilidade de trabalhar na linha da frente de um Hospital. Deveria, sim, tratar de papelada todo o dia pois, claramente, falta-lhe um detalhe tão importante como o conhecimento científico: o lado humano.

A minha avó paterna teve um AVC no final do ano passado. Não se sentia bem, foi ao Centro de Saúde e imediatamente a encaminharam para o Hospital de Viseu com um diagnóstico claro: princípio de AVC. Ora, todos nós - leigos - sabemos que os primeiros momentos são essenciais quando se trata de um AVC, correto? Ironia das ironias: quando a minha avó chegou à urgência com tal diagnóstico... não aconteceu nada. Colocaram-lhe a pulseira - amarela! - no pulso e deixaram-na à espera mais de oito horas, mesmo com todos os telefonemas, reclamações e chamadas de atenção. Ficou com sequelas? Óbvio que sim. 

E sabem o que me assusta mais no meio disto tudo? É ter partilhado esta história com alguns amigos e nenhum deles se demonstrar surpreendido. É ter contado isto a uma amiga e ela dizer que é normal neste Hospital, partilhando comigo logo de seguida duas histórias igualmente preocupantes. É o namorado da minha tia ter dado entrada na mesma urgência, ter os valores da glicemia a 400 e dizerem-lhe que estava tudo bem, que não havia motivo para a sua súbita perda de peso. Se nós - leigos, volto a dizer - continuarmos a confiar nestes profissionais sem procurarmos segundas opiniões e informações mais fidedignas, onde vamos parar?

6 comentários:

  1. Infelizmente por cada bom profissional de saúde existe um troll qualquer que teria ficado melhor como administrativo pois, claramente, não valoriza suficientemente os seres humanos que tem à sua responsabilidade.

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  2. Enquanto futura profissional de saúde assusta-me conhecer realidades tão diferentes das que tenho tido contacto com. Acredito que tenho aprendido com bons exemplos, ainda que com os maus também se aprenda. Acredito que temos, sim, profissionais que negligenciam ao confiar na sorte. Tristemente. MAS também temos dos profissionais mais bem preparados.

    Apenas te faço uma breve emenda: "Deveria, sim, tratar de papelada todo o dia pois, claramente, falta-lhe um detalhe tão importante como o conhecimento científico: o lado humano". Para se tratar de burocracias há sim que ter um lado humano tremendo. Há decisões que envolvem prioridades nos cuidados que reflectem isso mesmo.

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  3. Concordo contigo no aspeto em que esta situação é inadmissível e que as pessoas têm de ser responsbailizadas, que um profissional de saúde tem de ter um lado humano bastante grande até porque lida com algo que nos é tão querido: a vida dos nossos.
    No entanto, penso que deveria haver algum cuidado ao referir a palavra negligência...

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  4. Ai, Carol, lamento muito que isto tenha acontecido também com a tua avó... nem sei como é possível descuidarem tais tratamentos e sintomas. Assusta-me pensar que, se me acontecer alguma coisa, posso acabar nas mãos de um profissional assim, ou a minha mana, ou a minha mãe, ou algum familiar/amigo meu!
    Espero que eles melhorem este serviço e que comecem a pensar mais no lado humano, na decência e no cuidado com o paciente.

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  5. Há profissões como os professores ou os médicos precisam de ter conhecimentos e saber falar e ouvir as pessoas. É preciso uma vocação muito especifica. Se não são capazes disso então devem ficar nos bastidores! Principalmente os médicos que qualquer erro tem repercussões inimagináveis. Infelizmente há maus médicos e se isto se junto as más condições de certos hospitais: não haver espaço, materiais, profissionais suficientes... O nosso SNS precisa de uma séria reforma!!! As vezes penso o povo se revolta mais pela má qualidade dos árbitros do que pela falta de qualidade do nosso SNS. Assusta-me imenso os sitios aonde vamos parar em caso de emergência. As melhoras da tua avó! Espero que a senhora recupere dentro do possível ^^

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  6. Antes demais, lamento imenso a tua perda. Percebe-se facilmente que tinhas um elo de ligação forte com o teu tio.

    Relativamente ao Hospital de Viseu, que eu conheço bem pois sou de cá, posso dizer-te que infelizmente o atendimento não é dos melhores. Como sabes, fui submetida a uma cirurgia maxilo-facial em Setembro de 2017 e estive três no dias no hospital. Eu estava debilitada, não podia falar, tinha dores, não me podia levantar, e tinha de ter sempre gelo na cara. Eu chamava as enfermeiras de duas em duas horas para pedir a arrastadeira, para me darem gelo novo. Logo na primeira noite - que é a mais importante para que toda a recuperação corra bem - chamei três vezes as enfermeiras durante a madrugada. Na segunda chamada, elas chegaram ao quarto e disseram com tom mau "outra vez a menina? Durma!". Não posso dizer que tive a melhor das atenções porque até quando eu estava com febre foi a minha mãe a dar conta e a chamar a enfermeira. No entanto, também sei que depende dos departamentos e muito também dos enfermeiros e auxiliares. A minha mãe esteve quinze dias nos cuidados intensivos e só tem coisas boas a dizer. Eu estive três, e só digo mal. Acreditas que nem banho me deram nem mudaram a minha cama uma única vez?

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