Thirteen

SAÚDE | Ansiedade e Intimidade

Se a relação que temos com os outros e se a forma como os fazemos sentir depende (muito!) da maneira como nós próprios nos sentimos, então será óbvio que um momento de ansiedade afete também o tipo de relação que conseguimos ter - ou não - com os outros. Seria errado assumir o contrário.

Nunca fui apologista de andar agarrada a outra pessoa todo o dia. Detesto ser culturalmente obrigada a cumprimentar toda a gente com dois beijinhos. Não toco nos braços ou nas mãos das outras pessoas quando converso com elas. Não abraço alguém só porque sim e sinto alguma revolta quando uma mãe ou um pai obriga o filho a cumprimentar-me com um beijinho no rosto. O toque não é algo natural para mim - como sei que não é para muita gente - e, nos dias em que estou mais ansiosa (ou nos períodos mais prolongados de ansiedade), isso acaba por ser verdadeiramente sufocante.

Sinto que este é (mais) um tema pouco explorado quando se conversa - ou escreve - sobre doenças de foro psicológico. Não é fácil para quem está de fora compreender que não estamos a ser antipáticos, que não somos bichinhos do mato, que não somos anti-sociais. Ninguém pára para pensar que precisamos do nosso espaço - talvez mais do que outras pessoas - ou que existem alturas em que um simples toque nos irrita profundamente. 

Devemos sair da nossa bolha e da nossa zona de conforto para aprender e crescer mas, quando lidamos com o monstro da ansiedade, essa transição acaba por ser mais delicada e nem sempre - porque é mesmo assim - somos capazes de dar a volta à situação, de estar confortáveis num ambiente que nada tem de maligno, de ser o que outra pessoa precisa que sejamos naquele momento. É duro? É. Sentimo-nos culpados por viver com uma doença que nos afeta mais do que gostaríamos, por sentirmos que não estamos a corresponder, por nos sentirmos um fardo na vida de quem quer o melhor para nós. O mundo precisa de falar disto, de encontrar o equilíbrio, de perceber que há dias em que não somos capazes mas que há outros em que somos duplamente fortes e o pilar de quem precisa de nós. Será impossível estar permanentemente em sintonia - o truque estará em respeitar o tempo de cada um.

5 comentários:

  1. Não podia concordar mais com as tuas palavras. Nos períodos em que a ansiedade se faz sentir mais, é tudo muito mais "duro". E ter alguém a invadir o nosso espaço não ajuda nada, mas as pessoas não compreendem e tentam forçar, quando a melhor forma de ajudar é mesmo respeitar o tempo e espaço de cada um, como disseste.

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  2. Que publicação tão pertinente e tão necessária, Carolina. Obrigada por me fazeres refletir neste assunto. Apesar de também eu precisar de algum espaço (físico) pessoal, nunca tinha pensado na questão da perspectiva de alguém que sofre de ansiedade. Vou pensar nisso daqui para a frente. Obrigada!

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  3. É muito difícil fazer as pessoas entender que, por vezes, necessitar de espaço pessoal não é uma questão de antipatia, não é querer ser desagradável... Obrigada por teres abordado este tema e por teres colocado isto em palavras :)

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  4. As pessoas estão muito presas a normas sociais que, frequentemente, não fazem qualquer sentido, colocando os outros em posições desconfortáveis. Nós temos que ser todos de abraços e beijinhos, é preciso saber respeitar o espaço pessoal de cada um, sobretudo quando temos ansiedade à mistura.
    Muito obrigada por, mais uma vez, abordares este tipo de assuntos que, calculo, não sejam fáceis de abordar. Essas das poucas bloggers que abordam a saúde mental de uma forma crua, sem floreados e tão pertinente, e já ajudaste muitas pessoas assim.
    Beijinhos
    Blog: Life of Cherry

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  5. «o truque estará em respeitar o tempo de cada um.» Obrigada, é só mesmo isso que tenho a dizer, obrigada por esta simples conclusão de um assunto com o qual me identifico tanto. <3

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