"Eu sabia que queria isto. E eu queria-o tanto. Não porque os meus pais mo impingiram.
Não porque tinha boas notas. E muito menos porque um dia ia ser a Sr.ª Dra.ª . Eu
sentia-o. Acho que até, de certa forma, habituei-me à ideia de o querer. Sonho? Sim.
Acho que lhe posso chamar isso, ainda que pareça um cliché dizê-lo. E assim que
entrem em Medicina, vão perceber que este vosso sonho que vocês acham tão especial e
tão próprio de vocês era afinal o sonho de centenas.
E então, porquê Medicina Inês? Tinha uns cinco aninhos quando comecei a dizer à
minha mãe que quando crescesse queria ser "viriata". Perceba-se a minha tentativa de
dizer pediatra. E isto claro, veio depois da vontade de ter a profissão dela. Mas o
porquê. Acho sempre esta a pergunta mais difícil de responder. E os meus colegas
também hesitam sempre à questão. Na minha opinião, várias são as razões pelas quais
as pessoas chegam a este curso. Mas, de uma forma bastante simples, podemos agrupá-las em dois grupos: as que ainda hoje não sabem o porquê de cá estarem e as que foram
descobrindo ao longo do curso o seu lugar. Eu insiro-me perfeitamente no segundo. Isto
para vos dizer que acredito fortemente que só quando estamos cá, no campo de batalha,
é que percebemos o tipo de soldado que queremos ser. Um ano depois sei perfeitamente
dizer que estou cá para salvar vidas. Mas incluo a minha. A minha vida vai ser tão bela
por e para Medicina. E já começou a sê-lo. Sinto-me a ser observada por mim, de fora,
como se de uma personagem de um filme se tratasse. Vejo a Inês de agora mais
corajosa, capaz de coisas grandiosas. E no fundo, eu sinto que sempre soube que ela
existia. Só a estou a conhecer.
Expectativa vs Realidade? Começo por confessar que as minhas expectativas sempre
foram muito poucas. E tudo isto porque nunca tive um contacto direto com pessoas que
frequentavam o curso ou porque nunca me senti informada o suficiente em relação a
esta coisa chamada faculdade. E acho que isso é fruto de uma pequena falha do nosso
sistema educativo. Sinto que, a partir do momento em que as pessoas entram no
secundário - e, por sua vez, a média académica passa a importar muito para o nosso
futuro - devem ser aconselhadas, acompanhadas, esclarecidas. Tudo. Porque acredito
que muito boa gente está agora desorientada e nem a fórmula de cálculo da média de
candidatura devem saber fazer. Eu não sabia. Fui sabendo. Por ter conhecimento desta
grande dúvida por parte de algumas pessoas que vieram ter comigo em busca de algum
conforto e ajuda recentemente, quero deixar aqui este tópico em pratos limpos:
Primeiro de tudo, assegurem-se que cada uma das três provas de ingresso necessárias à
candidatura deste curso - Física e Química A, Biologia e Geologia e Matemática A -
têm uma nota igual ou superior a 14 valores. Só com este parâmetro estabelecido é que
se podem candidatar a Medicina.
Como fazer então o cálculo da tal média que ouvem falar há anos? É bastante simples.
O cálculo vai ser dividido numa nota de frequência (50%) e numa nota de provas de
ingresso (50%).
Valor dado pela nota de frequência: Aquilo que andaram a fazer durante estes três
anos de ensino secundário - 10º, 11º e 12º - vai ter um peso de 50% na vossa nota final.
Ou seja, quando saírem as primeiras pautas com as notas das vossas disciplinas - nota
de frequência - vocês vão calcular a média dessa pauta e imaginando que têm 19 valores
de secundário, vão multiplicá-lo por 0.5. É de acrescentar que estas notas de frequência
final já assumem as modificações feitas pelos vossos exames, ou seja já aqui têm a nota
com os 70% de nota final da disciplina (esta dada pelo professor) e os 30% da prova de
ingresso (nota específica que obtiveram no exame nacional).
Valor dado pela nota de prova de ingresso: Esta não podia ser mais fácil de
calcularem. É só fazerem a média dos 3 exames necessários que realizaram - FQA, Bio
e Geo e MatA - e imaginando que ficam com uma média de 17 valores de exames
nacionais é só multiplicarem novamente por 0.5.
Neste momento têm dois valores. Agora é só somarem. (19 x 0.5) + (17 x 0.5) = 9.5
+ 8.5 = 18 valores. E voilà, ficam com a vossa média calculada para saberem
exatamente que números ocupam tantos anos de esforço. Se eu acho esta forma de
ingressar em Medicina justa ou não, dava treta suficiente para um debate! Mas vamos
focar-nos no tópico.
A candidatura. À parte da fórmula de cálculo que penso já ter sido bem esmiuçada,
quero que vocês estejam preparados mentalmente para o dia da candidatura. Saibam que
têm seis opções. E essas seis opções devem ser uma das vossas preocupações. O
conselho que eu posso dar a quem tem uma média segura, como por exemplo 18
valores, é que se candidate a todas as faculdades de Medicina. Começando na que tem
maior média ou até focando-se numa que goste mesmo, por já saber como funciona ou
por questões de proximidade de residência. Mas tudo isto depende da vossa vida, das
vossas vontades para esta coisa que aí vem chamada faculdade. Se querem estar perto,
longe, numa faculdade com maior média ou numa com melhores referências. Pensem
muito sobre isto, porque vale a pena.
Para aquelas pessoas que calcularam a média e viram que esta pouco foge do 17, não se
apoquentem. Há um ano atrás, eu estava nessa situação e hoje estou aqui e eu não sou
mais do que tu que aí me lês, nem tão pouco sou o exemplo da perfeição. Não. Por isso,
deixem de pensar que não vão conseguir só porque o colega da sala ao lado tem uma
média espetacular e vos vai roubar o lugar na universidade x. Não. Dispam-se de
comparações e vivam a vossa vida. Encarem isto como o vosso bebezinho. É esta a
vossa média, é esta a vossa vontade e esta é a vossa candidatura. E pensem: alguém já
esteve no meu lugar e talvez com uma média pior que a minha, então porque é que eu
terei de ser o infeliz que não vai conseguir? Metam isto na cabeça. Eu andei com umas
ansiedades evitáveis na altura, mas recusei-me a comparações e a angústias de: Eu não
sei o que fazer se não conseguir entrar em Medicina. Eliminem estes discursos da vossa
vida, já.
Lembrem-se que vocês são muito mais do que um curso. E se não entrarem, não o
encarem como uma derrota. Se é chato os outros conseguirem "seguir com as suas
vidas" e "estarem no curso que querem"? Claro que é! Quase que faz comichão. Irrita.
Mas vocês têm a vontade, lembram-se? E se tiverem que ir às segundas fases, se
tiverem que fazer 4 exames no 12º, se tiverem que ficar até um ano a estudar para voltar
a repetir os exames nacionais, FAÇAM-NO. Uma coisa que eu aprendi é que devemos
de deixar de ter pena de nós e começarmos realmente a fazer algo por nós. E se isso
significar ter que passar por este tipo de obstáculos, porque não?
O curso. Depois de uma mini-vida a matarem-se a estudar, eis que surgem as merecidas
férias. E que ricas férias! Aproveitem-nas ao máximo. O início do semestre começa em
Setembro, encanta em Outubro e começa a doer em fins deste mês! Vão ter um primeiro
semestre esgotante, porque o choque é demasiado grande e nenhum dos avisos que
tiveram - nem mesmo este de hoje - vos vai servir de preparação para o que aí vem. Mas
calma. Respirem. Tudo se faz.
As semanas de introdução são o sonho de qualquer pessoa que queira mesmo estar cá e
mesmo o daqueles que só querem festa. Se tiverem a boa sorte de entrarem
na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, mais vulgarmente conhecida
por FMUL, não vão querer mais tirar os pés desta faculdade. Só a distância vos pode
separar de uma instituição como aquela, onde somos bem recebidos, onde temos
oportunidades fantásticas, como por exemplo o estágio de Verão que estou a ter agora,
no final do meu primeiro ano de curso.
Em relação ao curso em si, posso dizer que tivemos um pouquinho de tudo. O conteúdo
curricular deste primeiro ano foi um pouco generalista sim, mas não demasiado teórico
o que, para mim, foi um ponto a favor.
As cadeiras. Cá, as cadeiras são agrupadas em Módulos. Dentro de cada um destes
módulos temos então duas ou, no máximo, três cadeiras.
No primeiro semestre, Mód.I consistia em Biologia Molecular da Célula e Imunologia;
Mód.II agrupava Anatomia I, Bioquímica, Histologia e ainda Farmacologia; e por fim,
Mód. III dizia respeito à cadeira "O Médico, a Pessoa e o Doente" (nome criativo, eu
sei) e ainda o Tronco Comum, que consistia em duas cadeiras: SBV e Ética, uma prática
e a outra teórica, respetivamente.
O mais desafiante do primeiro semestre foi definitivamente Anatomia. O resto é, sem
dúvida, mais suportável. Anatomia exige demasiado de nós, que acabamos de vir dum
mundo chamado secundário. Exige horas de estudo e muita análise de imagem. Se há
livro que eu comprei e não me arrependo assim muito é o Netter. Vocês vão-se fartar de
ouvir falar nele, de certeza. Mas sim, é muito bom porque é um atlas que vos permite
acompanhar a teoria à medida que a vão lendo. Bioquímica acaba por também ser
puxada a nível de aula. É quase que um prolongamento da Química que tivemos durante
o 12º misturada com metabolismos. Não devem ter assim muitos problemas com a
matéria desta, uma vez que já vos é mais familiar.
Suporte Básico de Vida foi o primeiro exame prático que fiz e correu bem, apesar da
ansiedade pré-teste ter sido horrível e completamente desnecessária. Mas vocês vão
aprender a controlar esta ansiedade e, além dela, vão aprender a reanimar alguém, o que
acaba por valer muito a pena! A responsabilidade de saber estas coisas também não é
nada fácil de gerir inicialmente mas vão acabar por achar o rumo natural das coisas.
O primeiro semestre não só é desafiante pelas cadeiras como pela adaptação a esta nova
vida. Isto para já não falar da adaptação a uma nova cidade, como foi o meu caso. A
novidade choca e faz-nos desesperar um bocado. Mas nada temam! O que não assusta,
não vale mesmo a pena, não é verdade?
No segundo semestre, Mód.I consistia em Genética e Biologia do Desenvolvimento,
Mód.II continuou a dizer respeito a Anatomia (II) e a Histologia, tendo também
Fisiologia como parte integrante. Por fim, Mód. III agrupava Medicina Preventiva e
Bioestatística.
O melhor deste semestre foi, sem dúvida, todos nós termos superado o medo da
Anatomia. Foi o encarar a coisa de frente. Foi o estudar, dormir e comer melhor. Foi a
consolidação da adaptação e o regresso de alguma paz de espírito. Uma vez, disseram-
me "O hábito faz coisas incríveis" e a verdade é que é isso mesmo que acontece.
Habituarmo-nos a algo assustador, que deixa de o ser. Cadeira mais desafiante:
Histologia. A minha preferida deste semestre! Muita gente não acha piada nenhuma a
Histo mas sendo eu uma criatura estranha que adora fotografia e tudo o que é
conhecimento, é claro que só podia gostar desta cadeira.
Métodos de estudo. A minha teoria é que não há assim um método milagroso. Todos
nós aprendemos com os erros e à medida que se estuda é que se vai elaborando um
plano concreto daquilo que se quer fazer para x cadeira. Eu pensava que já tinha o meu
método de estudo no secundário - que era fazer resumos e resumos - mas estava
enganada. Na faculdade, esqueci os resumos, passei aos esquemas com setinhas,
bolinhas e todo o enfeite que possa chamar a atenção de quem os lê. Uma coisa que
devem fazer SEMPRE é rever exames de outros anos, porque há sempre uma mínima
probabilidade de aparecer pelo menos uma questão à qual já sabem responder. E isto é
assim porque em todos os sítios do mundo há um preguiçoso que resolve repetir as
coisas. Dá menos trabalho. Percebam o drama.
O que vão precisar. Sublinhadores! Comprem! De duas cores diferentes, pelo menos.
Post-its! Também vão fazer muito jeito para mapearem o estudo. Esqueçam os 4, 5
cadernos, isso já lá vai. Um basta e, mesmo assim, se calhar não o vão terminar num só
semestre. Eu tenho um amor platónico por folhas brancas e cadernos pequenotes para
apontamentos nas aulas, por isso este foi o único material que comprei para este ano.
Uma bata branca! Se tiverem a que usavam em Química em bom estado, porque não a
usarem? Se não tiverem, comprem uma na faculdade, mesmo para aquela sensação de
estreia de Domingo. Ah e tragam paciência e boa vontade! Ajudam sempre.
Para finalizar, queria só salientar que isto é apenas uma orientação para o que devem
esperar de tudo. É claro que fica sempre muito por dizer mas não vamos entupir aqui o
Lucky 13 cheio de recomendações e pormenores. Qualquer dúvida que tenham em
relação a uma cadeira em especifico que eu não tenha esclarecido coloquem à vontade
que eu estou disponível a esclarecer. Posto isto (agora é que termino mesmo, não
desanimem!) queria desejar a todos a maior sorte do mundo. E lembrem-se, nada se
consegue sozinho, por isso usem todas as pessoas e coisas que vos despertam para vos
manterem focados nesta etapa ou então distraídos dela, na altura das esperas pelos
resultados. Este é o momento em que precisam delas, quer no início, no durante e no
fim. Medicina é incrível mas faz-nos duvidar das nossas capacidades por vezes, e é
nestes momentos de insegurança que precisamos de quem nos conhece e entende bem
para nos recolocar no lugar onde merecemos estar.
Até para o ano, colegas."
Inês, Aluna do Primeiro Ano do Mestrado Integrado em Medicina na Universidade de Lisboa.
[Se tiverem dúvidas ou questões podem deixá-las na caixa de comentários. A Inês irá responder às vossas perguntas no mesmo espaço assim que possível.]
Adorei a Inês!
ResponderEliminarMuito obrigada Mariana! :)
EliminarUauuuuuu Inês!
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