Thirteen

1+3 | Coragem

Numa aula da Faculdade, uma professora - Professora Doutora, com um currículo invejável e respeitada na comunidade académica, como gosta de ser conhecida - decidiu insultar-me no silêncio de uma sala repleta de alunos universitários concentrados nos exercícios. "Afinal a menina é muito organizada...! E eu que pensava que era uma grandessíssima galdéria!?" - disse ela, com um sorriso nos lábios e um tom implacável que mostrava que não era bem aquele adjetivo que pretendia usar (noutro contexto usaria uma palavra ainda mais feia, com certeza).

Eu, apanhada de surpresa no meio de uma aula em que estava totalmente concentrada no que escrevia, olhei-a nos olhos e ignorei-a, continuando o meu trabalho enquanto me controlava para 1) não lhe responder na mesma moeda, 2) não sair da sala até terminar a aula e 3) não lhe bater. Acredito que a minha reação tenha estado mais relacionada com a minha incredulidade do que com o meu auto-controlo mas, se fosse hoje, fazia os possíveis para agir da mesma forma. Ela não merecia uma resposta da minha parte; não merecia ouvir a minha voz, sequer. 

Esta professora tinha o hábito de insultar gratuitamente os seus alunos e tinha (ou tem) um cadastro de situações desagradáveis e discriminação contra alunas. Contudo, até chegar a minha vez, ninguém lhe tinha feito frente. Ninguém tinha feito queixa dela - e sem queixas, depoimentos e testemunhas, pouca coisa poderia ser feita para evitar repetições e outras faltas de respeito. 

Na hierarquia académica, esta professora estava numa posição premium e podia forçar qualquer pessoa a gastar rios de dinheiro em exames, recursos e propinas e, ainda assim, não lhe garantir o certificado de Licenciado; podia dizer o que queria sem sofrer qualquer consequência pois tinha na mão o futuro de dezenas de alunos. Como não sentir essa intimidação? Como não ter medo de agir? Como não ficar calado? Também eu pensei milhões de vezes na possibilidade de ter uma cadeira pendente por vingança. 

Eu tinha 19 anos e nunca tinha falado com ela fora do contexto de aula. O que lhe dava poder para me insultar? Ela não sabia absolutamente nada sobre mim ou sobre a minha vida mas chamou-me galdéria porque lhe apeteceu. Assim. Numa aula. Numa Universidade. À frente de tantos outros alunos que podiam, ou não, conhecer-me. A ousadia dela não teve qualquer impacto na forma como os meus colegas me viam mas rebaixou-me de uma forma que eu não merecia. Nem eu, nem ninguém. Porque mesmo que eu fosse uma galdéria - que não sou -, esse seria um problema meu e ela só tinha que me avaliar enquanto aluna. A minha vida social ou a lista de homens com quem eu me relacionava não lhe dizia respeito. De todo. 

Decidi agir. Decidi fazer tudo o que estava ao meu alcance para que ela percebesse que o seu estatuto não lhe permitia denegrir a imagem de outras pessoas. Não consegui ficar quieta nem calada. Aquela pessoa não tinha o direito de me rebaixar, de me intimidar, de me fazer sentir mal, de me fazer ter medo de ir às aulas e de ser novamente envergonhada à frente de todos os meus colegas.

Depois de queixas na Direção, semanas terríveis para o meu bem-estar e um apoio extraordinário dos meus colegas (que presenciaram a situação e/ou que decidiram falar sobre acontecimentos semelhantes), a professora deixou de dar aulas no nosso curso e eu senti um alívio impagável. Senti que tinha feito o que estava correto. Por mim, pelos meus colegas de turma, pelos alunos mais novos e por todos aqueles que eventualmente assistiriam àquelas aulas nos anos vindouros.

Hoje, e com a situação ainda entalada na garganta, consigo reconhecer que devo estar orgulhosa por ter mantido a postura no momento crucial que me poderia fazer perder a razão e por ter sido capaz de mudar a vida de muita gente - não só no que às unidades curriculares diz respeito mas também às revoltas pessoais e emocionais que ações deste calibre conseguem provocar.

Acredito que o mundo acaba por castigar quem não tem uma conduta ética e profissional. Acredito que o estatuto não é uma bolha de proteção e que, quando a maldade está entranhada na pele de quem age, essa pessoa irá sofrer as devidas consequências. Escolher não ficar calada foi uma das decisões mais difíceis que tomei na minha vida mas foi também uma das mais corretas e importantes.

Não se deixem pisar - vamos sempre ter coragem para lutar pela nossa dignidade e pelos nossos Direitos.


14 comentários:

  1. Foi precisa mesmo muita coragem mas ainda bem que a tiveste. Foste a mudança que o teu curso precisava. Parabéns pela atitude!

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  2. Não sei se teria tido essa calma e coragem toda numa situação dessas. Ainda bem que contribuiste para a denúncia dessa criatura. Parabéns! 😊

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  3. Sei que vai ser um comentário muito simples e directo, porém, só quero mesmo dizer isto: inspiras-me mesmo muito e, mais uma vez, dwixas-me de lágrimas nos olhos com o tamanho de coragem que demonstras, sempre. Um beijo

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  4. Realmente as pessoas não medem as palavras que dizem... Ainda bem que tiveste a coragem para te defender da melhor forma.

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  5. Tenho muito orgulho em ti. É este o comentário que quero fazer. Pequeno, mas sentido :)

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  6. Caramba, Carolina, chamar-lhe "coragem" é pouco! Bato-te palmas, em pé. De facto não é uma posição nada fácil mas tu foste com certeza um exemplo para muitos. Para mim foste. Muito bem :)

    Jiji

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  7. Que exemplo Carolina!!! Muito bem!
    No secundário tive uma prof que me puxou o cabelo porque estava a sussurrar as respostas para quem estava no quadro, saiu-me um " então??? Isso não se faz" e ela não repetiu e pediu desculpa e um prof tinha a mania de me bater com o livro de ponto na cabeça e à terceira passei-me e disse que aquilo não era maneira de um prof se comportar e ele nunca mais o fez e pediu desculpa.
    É importante tomar estas atitudes, as pessoas por vezes perdem a noção e nesse caso essa prof tinha mesmo de ter alguém que fizesse algo com consequências reais!

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  8. Chorei ao ler isto. Que orgulho na tua atitude, Carolina!

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  9. Olá
    Também estou neste desafio e, shame on me, é a primeira vez que aqui venho.
    Pensei se deveria ler ou não para que não fosse influenciada de alguma maneira, mas acabei por ler. O que vou contar é uma situação completamente diferente. Parabéns, fizeste o que deveria ser feito. E agora estás de consciência tranquila .
    beijinhos
    MARISA

    marisasclosetblog.com

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  10. Foste tão corajosa, Carolina, a sério!
    As pessoas não medem as suas palavras e pensam que os "cargos" lhes dão todos os direitos e mais alguns, enfim. Não sei se no teu lugar teria ficado calada no momento do insulto, mas foi mesmo o melhor que fizeste.
    Parabéns :)

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  11. Poucos teriam a coragem de fazer o que fizeste. E, sobretudo, conterem-se depois de serem insultados. A tua atitude fez com que fosse mais fácil a "expulsão" dessa senhora, com certeza. Não perdeste nunca a razão e deve ter sido crucial. Parabéns!!

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  12. Eu sempre achei que existe a nível académico uma hierarquia que é muitas vezes uma tentativa de inferiorizar o aluno, ensinando-o a aceitar e a se conformar. E assim temos profissionais que se habituam a manter esta postura. Chega de conformismos!

    Parabéns, Carolina!


    JU VIBES | @itsjuvibes ❤

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  13. Foste mesmo MUITO corajosa!Muitos parabéns pela tua coragem,eu confesso que se tivesse no teu lugar não sabia se tinha coragem de o fazer...

    http://arrblogs.blogspot.com/

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