Thirteen

SAÚDE | É preciso falar disto.

Este é o texto mais difícil que já escrevi. Hesitei muito antes de o escrever (e ainda mais antes de decidir publicá-lo). Porque é algo muito particular. Porque é um tema delicado e até polémico. Porque nem as pessoas à minha volta, na sua maioria, sabem exatamente o que se passa. Porque as palavras de nada servem. Porque não é fácil admitir que algo de errado se passa. Porque as lágrimas caem sem avisar e o cansaço é tanto que as horas que passo a dormir são o meu refúgio. Escrever sobre isto não me deixa confortável, de todo, mas é necessário. Por muitas razões.

Estou, neste momento, a lutar contra uma depressão. Não o digo - ou escrevo - de ânimo leve, mas (mesmo com toda a vergonha que sinto) escolhi um dia menos complicado para escrever sobre o assunto e ganhei coragem para o agendar para outra altura. Porque acredito que abordar estes temas é imprescindível. Porque não acontece só comigo. Acontece com milhões de pessoas. Acontece todos os dias. A vida dá muitas voltas, rouba-nos o tapete e faz-nos bater com o nariz no chão... e o mundo precisa de andar mais atento, de entender sintomas e não deixar tudo arrastar e piorar. Às vezes pode ser tarde de mais. Não quero que o seja - nem para mim, nem para vocês.

De há uns meses para cá, a minha ansiedade começou a manifestar-se de uma forma diferente. Para além do aperto no peito, das mãos geladas ou da irritabilidade… surgiu uma tristeza inconfundível, uma vontade de chorar constante, alguns pensamentos assustadores e um sentimento de inutilidade. Já não era só ansiedade. Assim. De repente. Por fraqueza ou cansaço… cedi. E, mais cedo ou mais tarde, caí no buraco negro. É aí que estou, com os abraços de quem sabe o que é melhor para mim mas não sabe bem o que pode fazer para me ajudar, com a obrigação de manter a rotina mesmo sabendo que tenho liberdade para a quebrar. Todos os dias são uma vitória.

Ainda não sei lidar com a vontade de chorar. Ainda não consigo perceber como alguém pode dormir um dia inteiro e, ainda assim, ter sono e conseguir dormir toda a noite também. Ainda não sei lidar com a dificuldade de sair da cama todas as manhãs, de não estar em silêncio, de não estar sozinha. Ainda não sei lidar com a falta de apetite ou com a roupa que continua a não servir. Ainda não consigo compreender a tristeza incontrolável que sinto. Ainda não sei bem o que se passa comigo - e para quem gosta de compreender tudo, de ser racional e de ter explicações lógicas… é um desafio.

Pouca gente irá compreender o que é adormecer todos os dias a chorar ou não conseguir medir o cansaço. Para quem tem a vida mais ou menos resolvida - ainda que com um assunto delicado em mãos - será difícil imaginar uma depressão. É isso que eu penso também; que esta situação não faz sentido nenhum e que o mundo é demasiado bonito para eu andar deprimida. E fico pior. Porque esta tristeza não passa, só cresce. Porque o sentimento de culpa agiganta-se. Porque o aperto no peito não desaparece, só me deixa mais cansada. Porque a vergonha de chorar supera a necessidade de o fazer para aliviar o que sinto, seja isto o que for.

Lidar com uma depressão sem saber que estamos envolvidos nesta confusão é absolutamente desgastante. E quando nos apontam esta doença, usando precisamente essa palavra, cai-nos a ficha e perguntamo-nos como conseguimos afundar-nos neste poço sem sequer nos apercebermos. Pior: agora que temos todos os sintomas à flor da pele e que já temos um nome para aquilo que estamos a viver, já não sabemos o que é estar verdadeiramente bem e em paz; sabemos que precisamos de algo diferente, mas queremos mesmo dormir para que a dor passe. 2018 deu-me algumas chapadas e atirou-me alguns baldes de água fria, mas confesso que foi este susto - com tudo o que lhe está associado - que me deixou de rastos. Afinal, não foi só um susto. Estou no meio de areia movediça.

Tenho chorado muito. Tenho-me sentido fraca. Tenho-me preocupado menos com a minha roupa. Não tenho usado maquilhagem todos os dias. O meu cabelo anda preso muitas vezes. A Carolina de há um ano não reconheceria a Carolina de agora. E é uma bola de neve que nunca derrete.

Conto pelos dedos de uma só mão o número de pessoas que têm conhecimento desta situação. Fingir que está tudo bem é relativamente fácil e evita muitas perguntas… mas não é real. Sei que os meus colegas e até alguns amigos diriam de imediato que o diagnóstico está errado, que eu deveria procurar mais opiniões, que é impossível eu estar a lidar com um monstro deste calibre se as nossas conversas se mantêm e os momentos não mudaram. Talvez por isso eu sinta necessidade de escrever sobre este tema. É mesmo necessário falar disto. É essencial compreender que uma depressão não se manifesta da mesma forma em toda a gente, que existem diferentes degraus nesta escada, tal e qual como acontece com a ansiedade. Um sorriso não tem de ser falso, mas não significa que tudo está bem.

Esta publicação não é um pedido de ajuda nem quero palmadinhas nas costas. Quero, sim, que fiquem atentos às pessoas da vossa vida. Que aprendam a detetar sintomas em vocês próprios. Que saibam salvar-se antes de cair no poço. Que aprendam a contrariar a situação - e que vos conheçam suficientemente bem para poderem fazê-lo. Que saibam enfrentar o monstro, em vez de fingirem que ele não existe. Quero, principalmente, que respeitem o vosso corpo e cada uma das pessoas que vos rodeia - nunca sabemos o que os outros estão a sentir ou o impacto que as nossas palavras e gestos podem ter. Hoje não é Dia Mundial da Doença Mental, mas estes temas devem ser abordados por muito difícil que seja. Por vezes, respirar é a tarefa mais difícil do dia… vamos ignorar as milhares de pessoas que se debatem com isso no seu quotidiano?

11 comentários:

  1. Carolina, desejo sinceramente as tuas melhoras e que te sintas melhor em breve. Obrigada por teres a coragem de falar sobre este tema. É tão importante termos conhecimento e estarmos atentos às nossas pessoas. Um abracinho apertado <3

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  2. És tão, mas tão corajosa ❤ E olha que isto não são palmadinhas nas costas, é mesmo verdade! Acho que não é possível ter uma noção real do bem que podes estar a fazer a algumas pessoas ao falar destes problemas tratando-os assim, pelos nomes e exatamente como são.

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  3. Carol, fiquei a chorar com esta publicação e acho que sabes porquê. Gostava muito de ter a coragem e a força que tu tiveste para falar do assunto. Admirei-te ainda mais pela coragem, a força e porque sei que vais ultrapassar isso. Que vamos ultrapassar isto. Muito obrigada por teres escrito sobre este assunto.
    Um beijinho do tamanho do mundo.

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  4. Que testemunho Carolina ! É preciso ter muita coragem e muita força para ter escrito o que escreveste. E ainda mais, para o publicares ! Por muito que até te possas questionar sobre isso...
    Não é fácil e é importantes estarmos em alerta connosco e com os que nos rodeiam, mas tal como o disseste "todos os dias são uma vitória" até ao dia em que vencerás a guerra! Porque sabes uma das coisas mais essenciais para alcançar esse feito : que estás doente. Aceitas-te esse mal e agora arregaças-te as mangas para lutar por ti! Por muito que até te questiones disso, acredita que é o que estás a fazer... diariamente e com a escrita deste texto. Porque, se no fundo, sentires que isto te ajuda, escreve ! Todos os dias ou quando te apetecer. Nós estaremos aqui para ler e para te passar as boas energias que tu só precisas de receber para continuar a caminhar, passo após passo ! Força :)

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  5. Carolina tocaste no fundo do meu coração. Porque sei o que isso é. Não exatamente porque cada caso é um caso. Mas revi-me em cada palavra que escreveste. É preciso coragem para escrever sobre este tema. É preciso força para ultrapassar este problema e sei que ela falha muitas vezes, mesmo que queiramos que não. Por mais sorrisos wue mostremos, o choro e mau estar é que estão a tomar conta de nós. É importatim estarmos atentos. Infelizmente, a sociedade tende a ignorar e subvalorizar estes problemas, quando deviam fazer o contrário, ter atenção. Não vejas o mru comentário como uma "palmadinha nas costas". Vê como um desabafo de alguém que também tem lágrimas a escorrer mais vezes que queria, que também já caiu no poço escuro e fundo e está a tentar chegar a um patamar aceitável em que consiga respeitar e viver bem. Vê-o como um abraço de força e também de gratidão porque é preciso estes testemunhos para as pessoas se preocuparem e estarem atentas às outras. E tu fizeste-o. Parabéns por isso. Este passo já demonstra a tua força. Beijos

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  6. Um grande beijinho. O teu texto é uma chapada de realidade.
    Beijinhooo
    Ritissima Blog

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  7. Vergonha não, isso não - admiro-te tanto, de coração. És uma força da natureza, uma mulher-faz-tudo, mesmo com a batalha que tens contra a ansiedade que te assola, e, caramba, não é vergonha nenhuma seres humana e ires abaixo de vez em quando. Mas mais do que tudo, e já que és alguém que gosta de conseguir racionalizar, vê sempre os teus pontos fortes: a tua coragem imensa, a tua força de vontade para fazer acontecer mesmo quando estás de rastos e a tua sensibilidade e consciência de ti mesma. E que isso não sejam motivos para achares que "deverias estar bem", porque estar doente não é nem nunca foi uma escolha, mas sim motivos para veres que mesmo quando estás em baixo não tens motivo nenhum para ter vergonha. Só espero que tenhas todo o carinho, apoio e acompanhamento de que precisas e que mereces - porque mereces mesmo o melhor! Muita força, melhoras rápidas e obrigada por partilhares <3

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  8. Já te admirava antes disto. Admiro-te mais agora. Pela coragem, pela força, pelo bom carácter, que sem te conhecer, pessoalmente, sei que tens, pelos últimos meses em que falámos (e juntámos os nossos projectos). Por tudo isto, desejo-te o melhor do mundo.

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  9. Ai Carolina, fiquei com o coração no chão ao ler esta publicação.
    Pelo que vou lendo aqui, acho que és mesmo muito corajosa e esta publicação é prova disso. Não imaginando o que passas só te quero deixar um beijinho muito grande e desejar-te a maior força do mundo <3

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  10. 💛⚡ tu és uma lutadora. Já suspeitava e, também por isso, mantenho o contacto próximo. Se a única coisa que conseguires fazer hoje for respirar, dou-te os parabéns. Takes a lot to do that! Estou aqui, amiga. ✨

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  11. Antes de mais parabéns ela tua coragem em falares sobre este assunto porque eu sei que pode ser muito difícil admitir que estamos a passar por uma situação dessas. Vai haver sempre alguém que vai dizer que a depressão não é doença é malandrice, que temos tudo para ser felizes e não devíamos estar a chorar, que é só manha e chamada de atenção... Infelizmente é um tema pouco falado e pouco compreendido, talvez porque por vezes é mesmo difícil de entender. Já estive desse lado e acho que o melhor conselho que te posso dar é que peças ajuda e te rodeies das pessoas certas. Fala sobre o assunto com um profissional e tenta trabalhar todas essas emoções que te assolam. Não te vou "dar palmadinhas nas costas" mas tenho que te dizer a verdade. Só te conheço através do blog e das redes sociais mas aquilo que vejo é que és uma miúda inspiradora, cheia de conquistas e com mil e um talentos, nunca te esqueças disso.

    Beijinhos

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