Thirteen

SAÚDE | No Dia Mundial da Saúde Mental, esta é a minha realidade.

Quando comecei a tomar ansiolíticos e antidepressivos engordei dez quilos. Depois, quando essa medicação deixou de ser a mais acertada para mim e passei a tomar uma nova, engordei mais cinco. Esses quinze quilos destruíram por completo a minha autoestima e passei a ter um armário cheio de roupa que já não faz parte do meu dia, que não sei se algum dia voltarei a vestir, que me lembra que a ansiedade afastou pessoas muito especiais e que houve dias em que a vontade de viver foi escassa. Esses quinze quilos são mais do que um número na balança.

Hoje é Dia Mundial da Saúde Mental e, pela primeira vez em quatro anos, não estou a tomar medicação. Deixei os fármacos em plena pandemia, no meio de uma loucura que nunca tinha vivido, com uma sensação horrível de solidão depois de ter perdido, em apenas 10 meses, um namorado (e uma família que ainda hoje sinto como minha), a avó que me viu crescer, um tio que partiu no dia do meu 24º aniversário e um amigo que merecia viver o triplo do tempo. 2019 não foi um ano simpático, muito pelo contrário, e 2020 não podia estar a ser mais estranho - fui obrigada a ficar em casa quando estava (finalmente) a conseguir contrariar essa vontade e senti que o mundo me deu mais um pontapé nos rins, obrigando-me a dar um passo atrás no meu processo terapêutico.

Batalho contra os efeitos secundários da paragem da medicação (irritabilidade no pico da montanha, enjoos insuportáveis, idas apressadas à casa-de-banho, ausência de fome, menstruação desregulada, dificuldade em dormir e ansiedade como há muito não sentia), mas isso não é relevante - afinal, os químicos são o demónio e a ausência de fármacos significa que estou menos louca (mesmo que ainda seja cedo para dizer que não preciso deles).

Estamos em 2020, num período extremamente delicado, mas as doenças mentais ainda são vistas como uma invenção ou pedido de atenção. Ninguém diz a um doente com cancro ou com uma pneumonia para pensar positivo, passear ou fazer desporto para não precisar de medicação, terapia ou acompanhamento médico, porém esse é um discurso comum quando falamos de transtornos de ansiedade, depressões, bipolaridade ou outras perturbações mentais. Está na altura de acabar com o estigma. 

O Dia Mundial da Saúde Mental é uma data que me toca particularmente e que gostava que não existisse, pois isso significaria que viveríamos numa sociedade mais empática e respeitadora. Infelizmente, ainda há um longo caminho para percorrer e a mensagem que precisamos de difundir é esta: o facto de não vermos uma doença (ou de não sermos capazes de a identificar a olho nu) não significa que não esteja lá.

4 comentários:

  1. Fico muito feliz por teres decidido partilhar um texto tão pessoal aqui no blog, mesmo com o receio do que as pessoas irão pensar e/ou dizer. Infelizmente, tal como tu dizes, ainda não estamos no ponto em que as pessoas respeitam uma doença mental da mesma forma como respeitam uma doença física como um cancro. As pessoas estão sempre a admirar a coragem e a resiliência de uma pessoa com cancro, mas esquecem-se que uma pessoa com doença mental também precisa de muita resiliência e coragem para lutar contra uma doença que não escolheu e que não é de todo, mesmo, uma chamada de atenção.

    Falando da tua experiência pessoal, na qual penso muitas vezes e com a qual me preocupo, lamento imenso, como sabes, toda a dor que passaste em 2019 e que estás a passar em 2020, o ano que seria o início de um recomeço para ti. Não consigo tirar-te a dor que sentes nem compreender metade daquilo que tu passaste, mas consigo admirar a tua coragem e persistência em continuar a dar o melhor de ti, todos os dias, mesmo com todos estes obstáculos. E posso dizer também que tens uma amiga e vizinha bracarense com quem podes sempre contar, para cafezinhos, mensagens ou até chamadas telefónicas <3.

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  2. Todos os dias me sinto inspirada por pessoas como tu. Anos antes de entrar neste pequeno universo já "te" lia, já lia o Thirteen e sentia que te conhecia através das tuas palavras. Acompanhaste-me durante o secundário e durante a licenciatura e, mesmo sem saberes, foste uma referência para mim no que diz respeito ao que significa hoje em dia ser mulher, jovem, lutadora e ambiciosa. És um exemplo de força e simpatia, sempre te vi ter uma palavra alegre e de apoio para todos, mesmo em alturas mais cinzentas. Feliz dia da saúde mental, Carolina! Obrigada pela tua coragem e pelo teu exemplo!

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  3. Revejo-me nas tuas palavras, infelizmente. A medicação trouxe-me mais quilos e as pessoas diziam que assim é que eu estava bem. Quando só viam o corpo "normal" quando sempre tinha sido (e voltei a ser) muito magra e nunca reparavam no motivo da mudança. O período de tomar a medicação foi uma tortura. Lembro-me de na altura estar a dar uma novela em que havia toxicodependentes em recuperação e continua a ser a única coisa a que me consigo comparar durante o desmame de ansiolíticos e antidepressivos. Só te posso desejar muita força. Um grande abraço e se precisares de alguma coisa é só dizer.

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  4. De certa forma desperta em mim felicidade por teres tomado a decisão de abandonar os fármacos. Apesar de poderem ser uma ferramenta e uma ajuda importante em muitos processos para lidar com perturbações mentais, estes não são a solução final e ter a coragem de abandonar uma "bengala" dessas numa altura tão complicada para todos, mas com tantos contornos delicados para ti particularmente, apenas mostra a tua força e a tua vontade para superar tudo isto.
    Sofro de ansiedade há muitos anos, desde que me lembro na verdade, por isso empatizo e identifico-me muito com aquilo que aqui escreves.
    Espero que um dia, o Dia Mundial da Saúde Mental sirva apenas para celebrar todos os avanços e conquistas feitos e não para ter de relembrar anualmente às pessoas que a saúde mental importa.

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